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Medo da mão branca

por Roberto Magalhães

14/05/2022 - 05h00

Que bicho nos tem mordido para espezinharmos tanto o irmão que sofre? Que covardia é esta que gosta de pisar aqueles que estão no chão? Para os de cima, dobramos a coluna e lhes estendemos os tapetes do puxa-saquismo. Para os desvalidos, cravamos lhes na carne a violência das garras. Tal perversidade tem sabido se esconder atrás das paredes que a protegem. Nem sempre. Às vezes, sujeira escapa e vaza em notícia que machuca.

Num bairro nobre em Santos - só o bairro é nobre nessa história - uma doméstica trabalhou como escrava por 50 anos. Sem salários, sem direitos trabalhistas, sem plano de saúde, sem poder sair sozinha e - para continuar repetindo este "sem" - sem direito de ser gente normal como a normalidade das gentes. Depois, como alguém tinha que pagar o pato, ela virou armazém de pancadas. Sobre ela, a patroa e as filhas descarregavam as suas frustrações e irritações em ofensas verbais e até mesmo físicas. "Negra suja, um dia a gente joga você na rua!" Que monstruosidade move as pessoas a ponto de escravizarem crianças? Aos 10 amos, Maria do Carmo de Jesus, já era empregada doméstica. Também sem. Sem salário, sem escola, sem futuro... Pior, sem comida: "A minha patroa esperava todas as pessoas comerem, depois raspava as sobras de todos os pratos e colocava aquela comida pra mim."

Que jeitinho perverso nos impulsiona quando, além de escravizarmos a doméstica, roubamos-lhe o dinheirinho da sua miséria? Madalena Santiago da Silva, negra, 62 anos, foi escravizada por 54 anos, em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. Nenhum direito trabalhista, mas todas as ofensas do mundo. E, inacreditável, vítima de golpe financeiro. A filha da patroa, a advogada Cristiana Seixas Leal (leal?) contratava empréstimos em nome da doméstica e, assim, surrupiou-lhe 20 mil reais da aposentadoria. Quando a sujeira veio a público, a doméstica foi entrevistada pela TV Bahia. A repórter, sensibilizada com a história da mulher, tocou-lhe a mão carinhosamente. A reação de Madalena surpreendeu. "Fico com receio de pegar na sua mão branca." "Mas medo de quê?", perguntou a jornalista. "Medo porque a sua mão é branca. Eu pego e boto a minha em cima da sua, eu acho feio." O que fizeram com essa mulher? Arrasaram lhe de tal forma a autoestima, que ela se envergonha de ser quem é e da cor que tem. Perguntada por que não pagava salário à empregada, a patroa cara de pau respondeu: "É porque a Madalena é da família, eu a considero uma irmã." "Essa irmã", todavia, não tem direito à herança, não viaja, não vai a restaurantes, não usa o elevador social, menos ainda, a piscina do condomínio.

Que arrogância nos empina o nariz e nos suja a boca para ofender quem do nosso lado está e nada nos fez? No metrô de São Paulo, a branca Agnes Vadja, incomodada com a presença da negra ao seu lado, destampou o preconceito: "Moça, você pode tirar o seu cabelo de perto de mim, ele pode me passar doença!" Bendito celular que tudo gravou. Abençoados passageiros que, revoltados, entoaram o coro de "racista" contra a agressora e a impediram de fugir até que a polícia chegasse.

Histórias não faltam, todas recentes. Uma defensora pública aposentada (defensora?) que mora num condomínio nobre (nobre?) descontrolou-se porque uma van de entregadores obstruia-lhe a garagem. Enfurecida, ela tentou quebrar o vidro e o retrovisor do carro. Depois, como era de esperar, silabou o preconceito racista: MA-CA-CO! Bendito celular, uma vez mais! Não adianta não ser racista. É preciso ser antirracista. Não adianta indignar-se. E preciso denunciar.

Ao terminar esse texto, triste com tudo que fui obrigado a narrar, uma notícia luz me abraçou. Negra, imigrante, assumidamente gay, Karine Jean Pierre, 44 anos, é a nova porta-voz da Casa Branca. Que feito histórico! "Sou tudo que Donald Trump odeia!".

Assim, ela se define.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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