Bauru

Articulistas

A disciplina da náusea

por Alexandre Benegas

17/05/2022 - 05h00

Devastação da floresta, malária, contaminação de rios e fome. Da maior terra indígena do país, sou um dos mais de 20 mil garimpeiros que controla as comunidades indígenas em território Ianomâmi. Se é ilegal, pouco importa, mas o nosso garimpo abrange 56% dos índios. Com promessas de sorte longa em ouro certo, duplicamos nossa exploração e avanço por hectares. Alicio jovens e quem mais puder. Inclemente, sei o que tenho, sei o que querem. Se me desobedecem, o peso da minha arma dita o calibre de quem deve dormir embaixo da terra. Assim vou seguindo e ditando minhas regras. Trabalho escravo, direitos humanos? Fala a verdade, a gente emprega muita gente. É muito índio para pouco cacique. Tem quem reclame do que a gente descarta, contaminando rios e peixes, fazendo com que os indígenas tenham alta concentração de mercúrio no sangue. Bobagem, na cidade grande matam, poluem e é vida que segue.

Da oferta rasa de caça e pesca dada à destruição do meio ambiente, jovens indígenas forçados são a trabalharem pra nós. A gente vende, isso mesmo, vende porções de arroz, sobras - e daí? - dos acampamentos, em troca de alguns gramas de ouro. Quando a fome do índios é tamanha, a gente propõe a troca de comida por sexo, escolhendo adolescentes e mulheres para dormirem conosco. Sabe como é, une a vontade de comer com a comida. Sem corpo, sem prato. Com promessa também de ganhar cerca de 3g de ouro por programa, muita gente nos procura. A escravidão estrategista é prender a atenção com a ilusão carcereira de que vão ficar ricos com ouro e cassiterita. Para os meninos, o novo mundo das florestas invadidas oferece espingardas, cachaça, celulares, pagando em dinheiro e ouro pelos serviços prestados, como os de barqueiro, mateiro e de garimpagem.

Nas noites de desejo comprido, troquei comida pela filha novinha de um deles. Coitada. Dava pra ver os olhos dela dilatados de medo dando a mão e o corpo suados. Sua meninice, feição de ingenuidade nascente, bezerro lambido, ainda molhado da língua materna. Fazer o quê? Gosto de ter o que comer gostoso em noites de dias apanhado no garimpo como entulho. Deitei eu mais ela. Antes de aceitar a mercadoria, apalpei bem. Coxuda, inteira carnuda. Tem garimpeiro que abusa tanto das novinhas, que castiga as vaginas com sífilis. Garanti pros pais delas que se eles me oferecessem sempre suas filhas, nãos lhes faltariam comida. Bom mesmo foi a noite com aquela de boca de veludo. Falava baixinho como água cochichando debaixo de ponte em redemoinho nos esteios. Sapos e grilos, donos da noite, competiam com meu gemido prolongado. Ah! Menina de uns quinze anos de cara escurecida de receio com o que o meu extremo faria com ela. Seu corpo dialogava com o urucum e a tabatinga. Enquanto a inocência corria-lhe pelo corpo, ela sentava sua beleza em jenipapo no colchão da minha barraca. Algumas, de voz soprada da angústia da vida, de quem se humilha até o mais baixo, chora de ter seu dono. Problema delas. No início era embriagar a cabritinha de cachaça, agora, inauguro a juventude das coxas na primeiro pecado deitado. Cada palmo da sua pele já me parece saturado de invasão. Acostumadas ao que eu quero, agora elas deitam nuas na cama com os olhos diminuídos ao abuso das minhas mãos. O garimpo ilegal é paisagem muda de pôr desarranjo nas coisas.

Na violência esgarçada de assuntar a vida indígena, fere a mãe natureza, prenhe de dizeres fecundados na boca do mundo. É denúncia num retrato verdadeiro, sem tinta, sem balido sorrateiro de um país a falir de corpo inteiro.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

Ler matéria completa

×