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O preço da botina

por Benedito J. A. Falcão

27/05/2022 - 04h59

Contam que no tempo do coronelismo, especialmente nas áreas rurais, candidatos compravam votos dando ao eleitor um par de botinas - um "pé" antes da eleição e outro, se confirmada a vitória. E, agradecido, o povo explorado beijava a mão do suposto benfeitor, carregando-o nos ombros pelas ruas da cidade.

E assim criou-se a "tradição da botina". A tradição de manter o povo escravo da ignorância e da miséria, refém da "benevolência" da aristocracia, gerenciada pela classe política. Quanto mais ignorante a população sobre o valor do seu voto ou quanto mais miserável, a ponto de vendê-lo, mais interessante era para os coronéis. O binômio "ignorância miséria" transformou-se na commodity eleitoral mais valiosa, apesar do efeito colateral dessa prática - o aprofundamento da desigualdade social.

Por isso é tão interessante manter escolas de baixa qualidade e universidade para poucos... Quanto mais estúpido o povo, quanto mais desesperado em sobreviver, mais dependente e manipulável... E nessa lógica desumana, fica a pergunta: afinal, quem é que paga a "botina"?

Em linhas básicas, funciona assim: A "botina" da miséria é paga com o dinheiro dos impostos... Os empresários repassam seus impostos para o comércio, que repassa para o consumidor (nós), que não temos a quem repassar... E aí, pagando os nossos impostos e os impostos deles, cada vez mais, somos obrigados a consumir menos... E reduzindo o consumo, diminui a necessidade de produção... e reduzindo a produção, são reduzidas as vagas de emprego... E na ponta da linha, o trabalhador... Quanto menor a escolaridade e maior o desemprego, mais pessoas dispostas a trabalhar muito ganhando pouco... Ou seja, mais miseráveis, reiniciando o ciclo e retroalimentando o sistema. E como a necessidade é a pior inimiga da razão, para quem está com os pés descalços e bucho vazio, é melhor não pensar muito...

Então surgem os "salvadores da pátria" com seus placebos eleitoreiros, apresentando de 4 em 4 anos paliativos que remediam as consequências, sem combater as causas. Afinal, combater a causa é perigoso demais para os mandatários. É preciso manter o povo dependente. Entretanto, o que os manipuladores dessa prática esqueceram é que um povo faminto e ignorante é também volúvel, oscilando como pêndulo de um extremo a outro, institucionalizando o servilismo independentemente do viés ideológico.

O resultado é o que vemos atualmente: a mesma parcela do povo que festejava a esquerda, hoje festeja a direita... e amanhã, quem sabe? Nivelados por baixo na intelectualidade, quem carregava nos ombros "coronéis", hoje aceita levar no cangote qualquer capitão...

E se você ainda está se perguntando "quem paga a botina?". Ah, ainda é o trabalhador... Porém o custo mais alto é o do país que, cheio de potencial, patina na lama do messianismo político... De slogan em slogan, criamos no povo a perspectiva do "país do futuro"... e como, geração após geração, esse futuro nunca chega, o povo desgostoso de tempos em tempos volta a olhar para trás e a acreditar na distopia de que o fim da democracia, entregue nas mãos de um ditadorzinho boçal, seja a melhor solução...

Quando aprenderemos?

O autor é colaborador de Opinião.

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