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Maria

por Alexandre Benegas

29/05/2022 - 05h00

Tal qual o branco é a cor que combina com todas as cores, Maria é o nome que carrega todas as mulheres. Da mulher grávida no ponto do ônibus com sacola do R$ 1,99, da advogada a argumentar em mesóclise: falar-se-ia; daquela de reza desmantelada, sozinha de olhos nus no altar frente à vela acesa; da apaixonada convicta de que o amor se instala em bocas com erres de mentira; da esposa que se prepara à espera dos olhos do marido; da copeira que, servindo à francesa, passa o dia limpando as coleções de talheres europeus da patroa e que, por um momento, pega, observa e devolve à sua inutilidade; da Maria que, cansada de ir com as outras, assume o protagonismo da suas escolhas; da moça caseira da cidadezinha que ao bordar um vestido se encante com o tecido e ao perguntar onde comprou, anote no caderninho que a mãe começou; da mãe que passou pra filha que passou pra neta a receita do bolo de fubá que a bisa um dia experimentou.

Da auxiliar de limpeza que todo o dia cata, varre, separa, esfrega, ensaca e sua; da balconista da farmácia que almoça, de novo, ki-suco com omelete; da morena que faz comercial da loira espumante; da lavadeira que estica os lençóis no varal para que percam a forma da noite dormida e se preparem para a futura, que nada há de ser igual nesta vida; das escritoras que tateiam livremente sua arte, por não temerem deixar suas impressões digitais no corpo do dia.

Daquelas que, envolvidas com a magia do carnaval, entregam-se ao momento pródigo em transformações; pudera!, simples trabalhadoras rodopiam-se em baronesas e princesas ganhando flashes, aplausos e holofotes na passarela da ilusão. Da Maria que faz do artifício arte e ofício, e na brandura dos dias suporta o bofete machista dos ditos em choro e coriza; daquela que se destampa na coragem descalça; da mulher de ontem: d-a-t-i-l-ó-g-r-a-f-a; da mulher enlutecida abraçada com cheiro de terra; daquela moça que compõe um calendário feito de domingos, isso, aquela da lata de leite condensado, equilibrando o vasilhame na cabeça há décadas.

Da contradição de vida. Da terra irrigada com verdades concessivas: embora o que se semeia se dá, barrigas anoitecem vazias; do futuro de um povo que não suporta mais escrever a vida em papel de rascunho, disposto a passar os sonhos a limpo; do perigo da rua, Maria, dos pés noturnos apressados com três oitão; do perigo das escolhas, a indicação perversa do luminoso mentiroso; Maria, a cidade grande pisca convites, a avenida iluminada acena para caminhos chamativos.

Da amizade, enquanto jovens, sonhando todos os jovens sonhos; da saudade escorrendo em dias de sol e chuva: do avental da mãe todo sujo de ovo agora lavado, passado e guardado; dos olhos estendidos para as fotografias gritando para as lembranças que tudo valeu a pena. Dos desígnios da vida, Maria; das expectativas, próximas como um copo com água: pode-se alcançá-lo, erguendo as mãos ou na tentativa inútil de tentar segurá-lo, insustentável à fatalidade da queda. Mulher, há coisas eternas. O vizinho envelhece bebendo o mesmo bar. O cão conduz a velhinha pela calçada curta violada de buracos. A política permanece com interrogações. As flores de plástico - eu sei que não morrem - mas ainda traduzem a esperança desmaiada.

 O autor é professor de Língua Portuguesa.

 

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