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Depois da morte

por Roberto Magalhães

18/06/2022 - 05h00

A prima do Gleison, a Roseleia Cristina, era tão pobre, tão simplória e tão sem estudo quanto ele. Mas, diferente dele, era uma viciada em internet. Mais uma. E, como mais uma, postava coisas que não cheiravam nem fediam. Depois, ansiosa, recolhia meia dúzia de likes e, raramente, algum compartilhamento. Mas selfiar a cara compensava. Sempre compensa quando se pode contar com amigas verdadeiras: "linda", "lindinha", "lindona", "lindaça"... Nunca "linduda", que esse "uda" anda sempre em má companhia: "barriguda", "nariguda", "peluda"...

Um detalhe: Roseleia Cristina era genial produtora de vídeos, só que ela não sabia disso. Mas sabia que o primo Gleison era um cara muito comunicativo. Também sabia que ela tinha em mãos um assunto bombante que interessava a ricos e pobres, a homens e mulheres, a brancos e negros, a homos e héteros... Interessava, enfim, a quem vivo estivesse. Afinal, quem não quer saber tudo o que acontece com a gente depois da morte? O Gleison sabia. Sabia e mostraria a morte ao vivo. Afinal, era o coveiro de Santo Amaro, uma cidadezinha do interior sergipano. Animada, Roseleia convidou o primo para uma parceria nas redes sociais. Ela filmaria e produziria os vídeos. Ele abriria os caixões, exumaria os corpos, separaria os ossos e ensacaria tudo, mostrando o que acontece com a gente depois de morto. O Gleison, que se sentia um zé buraco numa vidinha de cemitério, entusiasmou-se com a ideia. Quem sabe não ficaria famoso?

Pimba! Bombou! O vídeo do Gleison exumando o próprio pai atingiu mais de 15 milhões de visualizações. "Olha, gente, esse é o fêmur do papai! Aqui, a bacia dele. Agora, vou separar os ossos do braço. Finalmente, o crânio." Com técnica elogiável, o coveiro ensacava o que da vida restou. As perguntas, sempre as mesmas. A mais perguntada revelava um baita dum medão: "Os defuntos permanecem direitinhos no caixão? Você já encontrou algum de bruços? E de lado?" Os inconformados: "Mas pra que exumar? Não dá para deixar o cara quietinho descansando?" Os mais sensíveis: Depois disso tudo, você consegue almoçar normalmente? E dormir?

Embora famoso nos jornais e na tevê, o Gleison anda pensando largar tudo para realizar um sonho antigo, quer ser funcionário do Instituto Médico Legal (IML). É um cara vocacionado, nasceu para viver juntinho dos mortos. Sucesso de um, inveja de outros. Agora, são muitos os coveiros nas redes sociais. Tem até pastor coveiro. Aliás, acho que não existe pregação mais eficiente do que falar da vida diante da morte. Enquanto remexe a ossada, o pastor vai fazendo o sermão: "Pra que ser metido, meu irmão? Pra que se achar superior? Olha, aqui neste caixão, como você vai ficar. De que vale o seu dinheiro? O seu carrão? A casa na praia? Nada! Ama agora o seu pai, a sua mãe, os seus filhos! Depois, não adianta vir aqui rezar e acender velas. A terra já comeu tudo!"

Eu não sei se o Cleyton de Sousa, um morador do agreste pernambucano, tem escutado o sermão do pastor coveiro. Mas também ele anda refletindo sobre esse pozinho que todos somos. Aos 36 anos, construiu o próprio túmulo, no cemitério local, com espaço para dois caixões, lugar para velas e plantas. Na lápide, colocou a sua foto colorida, a data do nascimento e, não sabendo a da morte, registrou: "em breve". Ficou famoso também. Numa das entrevistas, o "Cleyton da tumba", como agora é chamado, explicou por que resolveu construir a própria sepultura. "Quero ser homenageado em vida, depois de morto, não me interessa." No dia de finados, ele ficou, ao lado da sepultura, vendo, emocionado e disfarçado, muitos visitantes acenderem velas e rezarem por ele. Depois, chorando, desabafou: "Foi uma emoção incrível! Se eu estivesse morto, eu não teria presenciado nada daquilo!"

Que frase, Deus meu!

 O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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