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Articulistas

Exaustão

por Alexandre Benegas

03/07/2022 - 05h00

Deitar acostumado com o incêndio na Chapada dos Veadeiros de 75 mil hectares destruídos, ver repetidas vezes barragens gordas de interesses romperem, escancarando o horror em sua plenitude, da água imprópria e sem condições de uso por todos os 356km de rio percorridos, lama que interrompeu sonhos, enterrou o armário com a camisa de procissão de João, soterrou o chinelo andado de Maria. Lama que alterou o bioma da Mata Atlântica, destruiu os mais de 1.775 hectares de margens da bacia do Rio Doce. 'Lamentável' justificou a boca protocolar da mineradora que vale. Vale a pena lembrar. Tudo Mariana, tudo Brumadinho. Enquanto isso, o incêndio na floresta coça, roça derrubando vidas, pegadas apegadas ao chão agora hirto de futuros - maldita vontade proclamada ao lucro incessante. Na mata, também se mata. Não basta o tiro, é preciso esquartejar, atear fogo no que sobrou do jornalista, da carne do indigenista.

Há menina grávida carregando futuro incerto, há mulher que apanha, apanha, apanha no silêncio do macho opressor, há gestante que aguarda vaga, de novo, segunda terça quarta quinta e sexta para exame no posto de saúde, há os que moram no outro lado da cidade, isso mesmo, no lado baixo da avenida sem semáforo na travessa sem calçada de poste com luz tímida na quadra de terra com mato alto.

De tudo isso, a vida que sobra pra viver. Da mãe doméstica que, amanhecida de um cansaço deixado gravado no rosto, sorri um sorriso alvejante de gratidão aos filhos. Do feirante que, inconformado com a injustiça social, reconhece que o dia não se nega a bordar nas toalhas das mesas fartas da patroa, do piscineiro desiludido de contatos rasos, do borracheiro: é papo-furado, dos incompreendidos, poetas, professores predispostos, enfim, a alugarem rugas para pessoas passadas. Dos solitários chegando em casa, olhando comovidos para o rabo do cachorro, entendendo como único "sim" recebido no dia.

Assim, desnecessária a indiferença das horas. Itínere, a perversidade tem sabido estabelecer moradas. Dos ternos que abotoam acordos em gabinetes da capital, dos cafés que bebem apertos de mão do puxa-saquismo à sujeira vazada em notícia que decepciona. De Maria do Carmo de Jesus, que trabalhou como escrava por 50 anos, num bairro nobre de Santos, sem direitos trabalhistas, sem salários. Das famílias jantando lixo, da fome de um povo ganindo no alto-falante, Crianças trocando o corpo por comida, drágeas e dreams. Chico, a novidade já não vem do brejo da cruz. Da violência desmedida a adquirir espessura de assombro da mão branca que mata a mão negra que não se envergonha de esfolar à luz do dia. Do que nos deixa perplexos, do complexo. Em Umbaúba, policiais rodoviários transformam porta-malas da viatura em câmara de gás. Parado por dirigir sem capacete, tão logo é detido e conduzido ao interior do veículo. Enquanto as pernas se debatiam numa exclamação de socorro, o nariz preto e pobre morria sem poder respirar.

Não descobri como calafetar todas essas fissuras, como frear o carro desgovernado na ladeira de paralelepípedo, como confiar no borracheiro da esquina, como avisar, por precaução, a mãe de um filho recém-nascido que o mundo lixa inclusive as peles acetinadas.

Não sei como embalar a tristeza pelo nosso país. Talvez numa caixa de papelão de supermercado - pra deixar claro que é barata, vulgar, tristeza de vira-lata. Há horas que penso em prendê-la com a coleira do cachorro e deixá-la quieta. Mas e se ela latir à noite, incomodando você?

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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