Bauru

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Motivações espúrias da reeleição

por Pedro Grava Zanotelli

29/07/2022 - 05h00

Todos nos julgamos ter bom senso, conforme disse o filósofo francês René Descartes, portanto, sabemos que uma boa gestão do prefeito, governador ou presidente seria melhor continuar por mais algum tempo, quando ainda há projetos em andamento e possibilidade de novas realizações, do que ser interrompida, porque a lei assim o determina. Sabemos, também, que a alternância de poder é um princípio básico da democracia, dando oportunidade de aproveitamento de novas visões, novos talentos e ter mais êxito no empenho pelo desenvolvimento, com melhoria do padrão de vida.

Dar oportunidade para a renovação e afastar o perigo da estagnação pelo continuísmo que conflita com o geral desenvolvimento das nações, certamente foi o que levou o constituinte a inserir o instituto da reeleição no texto constitucional, confiante no bom senso dos eleitores, mas como acontece com tantas outras coisas contraditórias da humanidade, as motivações para a reeleição dos quadros atuais em outubro, parecem ser mais espúrias do que justas.

Isto abrange os gestores e os congressistas, respeitadas as diferenças de obrigações e responsabilidades funcionais. Por que querem se reeleger? É porque têm um profundo amor pelo país? É porque têm convicção de poder dar uma real e significativa contribuição de melhoria? É porque já vem fazendo carreira pública, com reconhecido êxito nos cargos ocupados, e deseja aumentar a sua contribuição? É porque se sente capaz de servir de barreira a aventureiros ou ideólogos fanáticos que representem graves riscos à nação? Enfim, é porque o interesse e a vontade de servir estão acima do seu egoísmo?

Essas e outras motivações afins nos parecem justas e de fato existem, mas o que a realidade nos mostra, com mais ênfase nesta época, são as motivações espúrias, para obter vantagens pessoais: ganhar prestígio usando o poder de influência proporcionado pelo cargo para favorecer ou proteger parentes e amigos; obter ganhos financeiros legais, mas injustos; ter oportunidade de ganhos ilegais, às vezes até absurdamente exagerados; garantir uma boa vida para si e sua família sem a menor preocupação com as dificuldades dos seus semelhantes.

O país está imerso num oceano de calamidades: ocupa o 2º lugar no número de mortes pela Covid19, atrás apenas dos EUA; a maior devastação da Amazônia Legal, dos últimos tempos, pelo desmatamento e degradação de seus rios; mais de 30 milhões passando fome e muitos milhares perdendo tudo com as enchentes e alagamentos em 10 estados. O país está doente, os dois ministérios que representam a capacidade vital do desenvolvimento - o conhecimento (educação) e a energia (saúde) foram tratados com desdém pelo governo e visados pelos mal intencionados. A ética e a moral estão estremecidas, com desobediência jurídica e escândalos por desonestidade e assédio sexual.

Tudo isso poderia estar em nível suportável se nos anos que transcorreram a disciplina e a lealdade ante os compromissos assumidos publicamente não tivessem sido substituídas pelas notícias falsas na mídia eletrônica e ataques à mídia séria que, por fidelidade profissional, alerta para as falhas, apoia os acertos e critica os erros. E agora, que as candidaturas estão definidas, como apresentar-se ao eleitorado, justificando merecer o voto? Somente ignorando o passado e encontrando alguma coisa, de última hora, para oferecer, desde que não mexa nos milhões reservados para a campanha. Era preciso fazer um agrado sem abrir mão do fundo eleitoral e, a toque de caixa, com sessões até de um minuto de duração, num clima de falsidades, para criar a ilusão de que estavam protegendo os que não podem comprar a comida, foi aprovada a emenda 'kamikase, para distribuir uma ajuda até dezembro, ironicamente chamada "Auxilio Brasil", que segundo os que entendem do assunto, vai causar estragos na economia e descontentamento do povo, que ficará sem saber como será a partir de janeiro.

Do quadro atual, de bom nada se pode esperar e do futuro, agora o que se espera é que o bom senso do eleitor consiga excluir os que só têm fome de voto. Com licença de possíveis autores da frase: "Acorda Brasil!".

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

 

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