Bauru

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Porque é aniversário dela

por Alexandre Benegas

02/08/2022 - 05h00

Tudo certo cidades terem política com animosidades. Tudo bem cidades rimarem com curiosidades. Tudo nela anela em tudo. Ela, sim ela, tem o nome associado biologicamente à úlcera, serviu de inspiração para músicas. Depois de um show, Cazuza compôs uma canção chamada "A Garota de Bauru", sucesso dos anos 1980. Ocorre que a música repercutiu mal na cidade. Motivo? A letra falava de uma menina em tom depreciativo. Apesar disso, o compositor não ligou para as caras tristes fingindo que a gente não existe e sabendo que o tempo não para, acrescentou-a em seu álbum.

Acha pouco? Ela, mais uma vez, ela ganhou repercussão na mídia nacional. O tal abaixo-assinado para remover a estátua da Havan. Sabia disso? A loja, por trazer em sua marca uma réplica verde da estátua da liberdade, motivou a insatisfação da população. A cidade monumentalizava sua imagem. Quer outra? Escreve na pedra a lenda de que prefeito algum deve asfaltar a rua do cemitério. Por isso, ao redor, o paralelepípedo ainda manca. Por falar em cemitério - cruz credo! - as terras nas quais foi construído o primeiro cemitério da cidade foram doadas pelo empresário João Henrique Dix. Nesse local desta cidade, adivinhe quem foi a primeira pessoa a ser enterrada no local? Isso mesmo, o próprio Dix. Misto de misterioso e trágico, o homem se matou com um tiro no coração no dia 26 de julho de 1908, quando o cemitério estava prestes a ser inaugurado. Diz-se que havia uma carta de suicídio em que Dix explicou querer tirar a própria vida justamente por desejar ser o primeiro a ser enterrado.

Quer mais? E o caso do noivo? Governado pela emoção, um noivo teve um acesso de fúria. Tirou toda a roupa e saiu correndo da igreja onde ocorria seu próprio casamento em direção às ruas da cidade. Ninguém, até hoje, entendeu nada, nem eu. Por tudo isso e muito mais, consideram-na a 'Springfield brasileira'. Nela, teve um dos bordéis mais famosos do país. Tem no centro o Centrinho, referência na área de saúde no Brasil, o qual recebeu prêmio da Organização Mundial de Saúde (OMS). Tem Mary Dota, um dos maiores conjuntos habitacionais da América Latina, com 3,3 mil moradias. Por lá, vivem cerca de 18 mil habitantes, ou seja, uma população maior que cidades vizinhas. Tem astronauta e até um Observatório Didático de Astronomia "Lionel José Andriatto", da Unesp Bauru, cadastrado no Museum Alliance da NASA. Nela tem esporte. Tem Panela de Pressão. Apesar de estar no centro-oeste paulista, chuteiras enrubescidas enaltecem-na como 'Noroeste'. O porquê? Clube fundado por funcionários da estrada de ferro Noroeste.

Notória, a cidade tem nome de lanche transformado em patrimônio cultural e imaterial. Tem comércio, o Calçadão da Batista do café bebendo conversas que cospem o improvável, o possível. Tem você, tem eu, nós, que acreditamos numa cidade em constante desenvolvimento. Isso mesmo, numa cidade em sintonia com as mudanças, receptiva aos raios de sol. Da cidade com gente de convivência fraternal. Dessas com uma vizinha em dificuldade que me pedisse no muro uma xícara de açúcar emprestado e, assim, descobrisse a doçura da boa amizade. Do carteiro, que mesmo passando à porta da minha casa, me entregando encomendas, saiba que continuo com dúvidas e respostas prontas sobre a minha cidade.

Da cidade ética, justa de voz rascante que escolheu o estilete - nunca o açúcar - para lutar contra a desigualdade, marcando sua atuação e lugar no estado de São Paulo. Da cidade arte, literária, sabedora de quando uma pele de uma palavra atrai a pele de outra palavra instaura-se a rima. Eu, tu... Bauru.

O autor é professor de Língua Portuguesa.

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