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Revolução política sem partidos: por uma só bandeira

por João R. Lanza

05/08/2022 - 05h00

"A nossa Constituição foi criada na ditadura de Pinochet e, até hoje, não houve uma evolução. Não dá mais para manter o modelo político que nós tínhamos". Foi o que declarou um dos 21 chilenos entrevistados por mim durante uma viagem à capital do país, Santiago, em junho deste ano. Na ocasião, eu buscava entender as consequências da alternância entre os partidos de direita e esquerda para a política daquela nação, cenário bastante semelhante ao brasileiro.

Antes da viagem, eu me questionei: "Seria o Chile o novo modelo de governo que estará na América Latina e, possivelmente, no Brasil? A Colômbia também fez a sua troca da direita para o esquerdista Gustavo Petro, ex-guerrilheiro do M-19, que virou partido e possui direcionamento à Venezuela. Um novo descontentamento explícito?"

Buscar uma resposta para esses questionamentos esteve entre os motivos da minha viagem. Na ocasião, eu cheguei à conclusão de que os chilenos querem o Chile de volta, mas não nos moldes do passado. A característica desses primeiros 100 dias do governo de Boric, novo presidente chileno, está clara: destina-se a várias reformas. Tanto que o chefe de Estado aprovou, na sua primeira grande votação, os passos iniciais para uma nova Constituição. Uma revolução sem precedentes para qualquer país do mundo.

A mensagem é clara e pode contagiar todos os países da América, uma vez que os latinos são instáveis politicamente e na distribuição de renda. "Nós nos cansamos do descaso com o povo, com os índios e com todos que realmente vivem aqui", ressaltou uma comerciante de um dos pontos mais nobres do Chile, na região de Las Condes. "O nosso país, que era um dos mais igualitários e seguros, está cheio de crimes e assaltos, além de desorganizado nas suas leis de controle de imigração", acrescentou a vendedora.

O que mais me chamou a atenção foi a resposta unânime de todos os entrevistados, quando relataram não terem partidos definidos. Eles disseram que avaliam as melhores propostas e cobram pelo que foi dito. Não fez, não se manterá na política. Os chilenos enfatizam o poder dos mais jovens, aqueles que não querem passar pelas mesmas vivências dos seus pais. Até parece uma onda jovem de direita em outros países, que buscam menos estados e mais capacidade de crescer por conta própria".

Vale lembrar que as ruas argentinas, no dia 9 de julho, foram tomadas pela população, cansada do fracasso da esquerda kirchnerista. Nos protestos, havia até esquerdistas, ou seja, a ideia de uma só bandeira toma forma, fato que pode se repetir nas eleições presidenciais brasileiras. A população quer uma gestão mais competente e igualitária. Trata-se de um novo cenário, que não leva em consideração de qual lado você está, mas que preza pela unidade, pela distribuição de renda, pelo crescimento e pela liberdade.

 O autor é CEO e founder da WNN Consultoria há 10 anos. Formado em Administração e especialista em Estratégia e Inteligência de Mercado pela FGV, Ohio University - EUA - e UC Irvine – EUA.

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