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Escafedi-me

por Roberto Magalhães

06/08/2022 - 05h00

Homofobia, transfobia, xenofobia, claustrofobia, necrofobia, tecnofobia, bolsonofobia e sua urnafobia, lulofobia e sua morofobia... Não sei não, mas, com tanta fobia assim, acho que o mundo se fobou. Outro dia, um cara, que se diz meu amigo, mas adora me fazer de ignorante, perguntou-me: Professor, você é triscaidefóbico? Triscaidefóbica é a senhora sua mãe! Foi o que tive vontade de responder, mas, como sempre, calei-me. Disse apenas que nunca tinha visto palavra mais feia, tinha som de jamanta desgovernada espatifando vitrines. O desgraçado, depois de um risinho amarelo, iniciou a uma humilhante aula de etimologia. Ou seria etimofobia?

Professor, o senhor é um vernaculista (a palavra me soou "vigarista"), não fica bem ignorar o étimo das palavras. "Fobo" significa medo, a palavra faz referência a "Fobos", deus do medo, na mitologia grega. E "triscaideca" quer dizer treze. Então, professor, estou lhe perguntando se o senhor também tem medo do número 13?

Fiz cara de intelectual irritado e respondi: "Primeiro, fique sabendo que eu dispenso a sua aula de etimologia. A peixe não se ensina nadar (aqui entre nós e entre parênteses, confesso que esse peixe se afogaria sim.). Respondi-lhe que não era supersticioso, coisa de gente atrasada, ignorante. Agora, se no avião existissem outras poltronas, além da 13, por que a gente vai sentar justamente naquela do número do azar? Aí já é burrice. Entendeu? Ser prudente faz qualquer homem valer por dois e este segundo sempre se salva.

Como o "meu amigo" estava a fim de me humilhar, a aula continuou. "Professor, sabe como essa história do 13 começou? Culto como o senhor é devia saber. Na última ceia de Cristo, com 12 apóstolos, sabe quem foi o último a sentar-se? Ele mesmo, Judas Iscariotes, o traidor. Daí pra frente, a coisa espalhou que nem fake news em época de eleição. Lembra a Apolo 13 da Nasa? A cápsula partiu para a Lua às 13h13min no dia 11 de abril de 1970. Dois dias depois, dia 13 né, o tanque de oxigênio explodiu. Felizmente os 3 astronautas conseguiram voltar correndo para a Terra. E, na Fórmula 1, sabe a história dos carros com número 13? Dois acidentes fatais, um em 1925 e outro em 1926. Sabia, professor, que 80% dos prédios nos Estados Unidos fazem o elevador pular do andar 12 para o 14? E que, em muitos aeroportos, o portão de embarque 13 foi abolido? Eu, humilhado, era um peixe cabisbaixo se afogando. Naquele momento, o que mais eu queria era um anzol que me arrancasse daquela água. Mas de uma coisa eu tinha certeza: aquele merda tinha decorado todas aquelas informações só para me humilhar.

Quando, aliviado, eu me despedia dele, um gato preto cortou a nossa frente. Professor, olha que interessante! A gente falando de azar e ele aparece de repente. O senhor sabe de onde vem essa história de que gato preto dá azar? Emudeci. Amaldiçoei ter me levantado da cama. Era muito azar juntar, num dia só, o "amigo", o número 13 e o gato preto. Antes que ele começasse a me humilhar com a segunda aula, lembrei-me do que aconteceu recentemente como o ator Bruno Gagliasso. Sei que todo mundo é bem informado, mas não custa relembrar. Bruno, durante a gravação do "Quem pode, Pod", pediu às apresentadoras Giovanna Ewbank e Fernanda Paes Leme que interrompessem a gravação. Ao vivo, o galã de olhos azuis fez revelação assustadora: "Acho que caguei nas calças!" E sumiu para o camarim.

Para fugir do chato que me estressava, aproveitei a ideia: "Desculpe-me, cara, a gente se fala depois! Caguei nas calças!" Escafedi-me. Gente, nunca pensei que existisse, na língua portuguesa, um verbo tão expressivo e apropriado!

 O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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