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Alberto Consolaro

Vida de vírus não é fácil: uma odisseia!

27/06/2020 - 06h51

Reprodução

O vírus acopla-se à célula unindo suas proteínas externas, tal como uma nave espacial no planeta!

Para um vírus entrar no organismo tem que vencer o sol, calor, frio, falta de umidade, isto se não encontrar pelo caminho um sabão, álcool gel e outros desinfetantes, e até mesmo uma autoclave. Para chegar até um organismo, o vírus passa por uma odisseia no “espaço sideral”, tal como o meio ambiente em que vivemos ou oferecemos a eles! Um verdadeiro filme de aventura microbiana.

Depois que achou um organismo, os vírus têm que achar um orifício exposto como a boca, nariz e olhos, pois a pele mais grossa e seca, dificulta a penetração. Até chegar na célula-alvo vai ter que nadar por secreções como a saliva, muco, lágrima, urina e pelo sangue. Neste trajeto, correm perigo pois podem encontrar células guardiãs preparadas para matá-los ou ainda armas ou anticorpos idealizados para dizimá-los. As células podem ser chamadas de linfócitos e macrófagos e as armas de imunoglobulinas, enzimas e citotoxinas!

Se os vírus chegarem até a célula-alvo, ainda vai ter que usar uma senha nos receptores de sua superfície: [serra correta] pode entrar! E a partir deste momento, se começa o processo da reduplicação viral. A vida de um vírus não é fácil! Aliás, nem se sabe ao certo se o que ele faz pode ser considerado como vida!

QUEM SÃO?

Vírus vivem dentro das células e são tão pequenos como uma formiga perto da gente. Quando se diz “partículas virais” tem que ter cuidado. Partícula é uma parte muito pequena da matéria, é uma “partezinha” tão molecular que o vírus perto dela fica enorme! Partículas virais são partes de suas estruturas como acido nucléico, aminoácidos e proteínas. Se entrarem no corpo, as partículas não induzem doenças, mas se o vírus entrar inteiro, aí sim! As vacinas são feitas de partículas virais, mas não de vírus inteiros.

Para o vírus, uma célula é um parque de diversão enorme. Temos 10 trilhões de células para os vírus usufruírem. Ao entrarem nas células liberam seu pequeno DNA ou RNA, também chamado de genoma viral. Ele se incorpora no genoma gigante da célula, fazendo parte dele agora. O vírus dentro da célula é como um pirata dentro do navio: agora quem comanda é o “capitão gancho”!

Genoma é o conjunto de informações (ou manual do usuário) para que a célula funcione. Os genes virais incorporados transformam as, obrigatoriamente, em fábricas de novos “zilhões” de vírus, igualzinho aquele que entrou. Tudo rapidamente em minutos e horas. As células copiam e exportam cópias perfeitas destes vírus que irão contaminar outras células.

DUPLICAM!

Não é correto dizer que vírus prolifera ou se multiplica, pois não entram em mitose e se dividem. Os vírus se reduplicam ou replicam utilizando-se das estruturas celulares para formar “zilhoes” de cópias. Vírus não têm pais e filhos, tem os pioneiros ou os primeiros que chegaram, mas sem laços familiares e afetivos.

Vírus estão dentro das células, “vírions” estão fora delas e prontos para infectar novos hospedeiros. Depois de prontinhos, os vírus são lançados aos milhões para o exterior das células em suas secreções, interagem com proteínas do hospedeiro e recebem temporariamente o nome de “vírions”, prontos para infectar novas células e, dentro delas, voltarem a chamar vírus! Os meteoros estão no espaço, mas quando entram na atmosfera e persistem como pedaços de rochas na terra, passam a ser meteoritos!

REFLEXÃO FINAL

A odisseia de um vírus e as suas dificuldades em cada fase até se reduplicar aos milhões, faz com que a doença seja mais ou menos severa. São muitos os fatores que influenciam a gravidade da doença e a transmissão do vírus. É por isto que a doença viral nunca é igual nas pessoas quanto as manifestações clínicas! Como espécie atacada, nossa missão na odisseia é ser o outro lado da força, dificultando o que possamos para o vírus não consiga seus objetivos! Também é por isto que alguns pegam a doença e outros não!

Alberto Consolaro – Professor Titular da USP e Colunista do Caderno Ciências do JC.

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