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Alberto Consolaro

Reinfecção pela Covid-19: mito ou verdade?

17/10/2020 - 05h00

Reprodução

Os vírus se incorporam no DNA celular e são difíceis de serem totalmente eliminados

Na medicina e no amor não se usa duas palavras: sempre e nunca! A ciência é busca constante da verdade e a cada dia novas evidências modificam estas verdades, deixando-as ultrapassadas. Ciência não é religião e muito menos partido político. É o ramo da sociedade que se dedica a buscar soluções para os problemas e inquietudes humanas. Misturar ciência com política e religião é um desserviço à sociedade.

Uma pessoa com covid-19 fica imune depois que a doença passar? Pesquisamos, ensinamos e diagnosticamos há anos sobre as doenças virais e a imunopatologia humana e logo de início aprendemos que não podemos afirmar que uma pessoa com doença viral ficará para sempre imune e não mais contrairá a doença. Algumas, até permanecem imunes por alguns anos e até décadas, mas depois esta imunidade diminui ou desaparece pelo tempo e por outras doenças debilitantes como o estresse crônico de nosso dia a dia, sem contar com o etilismo, tabagismo, idade avançada, drogas, terapias medicamentosas e outras coisas.

Nas doenças virais esta imunidade pode ser de semanas, meses, anos e até décadas, mas não pela vida toda. Por que nas doenças virais isto chama mais atenção? A razão é que os vírus, diferentemente das bactérias e fungos, só conseguem sobreviver e reduplicarem dentro das células. Fora delas, logo morrem!

Os anticorpos e as células da imunidade não conseguem entrar dentro de outras células, pois são grandes demais. Até liberam substâncias para atuarem dentro de outras células contaminadas como as citocinas, mas no conjunto perdem em eficiência. No caso de bactérias e fungos, os anticorpos e as células imunológicas atuam diretamente contra eles, pois ficam fora das células. Os vírus podem ficar latentes dentro de células por décadas, quietinhos ou latentes, como ocorre com o vírus da hepatite, herpes, caxumba, zoster e muitos outros.

SIM OU NÃO

Nesta pandemia muitas pessoas deram entrevistas na mídia e algumas falavam em imunidade coletiva obtida quando um certo número de pessoas havia adquirido a doença. É imunidade coletiva e não de rebanho, um termo mais aplicado aos animais. Falavam convictas que a reinfecção não era possível! Eu assistia, ouvia e lia, ficando intrigado onde as pessoas tinha tirado tal informação? Uma dessas pessoas é um renomado professor uspiano que no dia 14 de outubro, escreveu na Folha como sendo possível a reinfeção e que deve estar tendo o seu papel na pandemia, ao contrário do que havia dito anteriormente. Havia uma hipótese que hoje se revelou equivocada!

Em quase todos os países do mundo há ambulatórios, pesquisas e estatísticas para casos de reinfecções da covid-19 e que pode ajudar a explicar por que a doença persiste e não cede tão rapidamente. Negar o diagnóstico de covid-19 e não notificar, nem mesmo na certidão de óbito, por questões políticas e econômicas, para baixar os índices epidemiológicos, nunca deveria ser feito.

Na ciência o que se afirma hoje, pode não mais ser real amanhã. Devemos ter todo o cuidado em afirmarmos sobre certas coisas, mas todas as pessoas dedicadas à ciência já fizeram afirmações que no evoluir, a ciência mostrou que estavam incorretas ou limitadas, contradizendo-se a si mesmo. O que este professor fez e reconheceu é o espírito científico na plenitude. Isto exige humildade e sabedoria! Na ciência não há crença, opinião e dogmas, apenas segue os fatos ditados pela metodologia aplicada.

SÍNTESE

As pessoas que tiveram covid-19:

1. Não devem ficar imunes por muito tempo; a imunidade parece durar alguns poucos meses, independente da gravidade da doença,

2. Continuam transmitindo o vírus por este período e devem tomar os mesmos cuidados de todos. As causas da reinfecção deve ser a contínua exposição ao vírus e negligência nos cuidados de proteção, duas situações comuns em profissionais da saúde,

3. Depois de algumas semanas ou meses, podem ter novamente a doença,

4. Os vírus nas pessoas que tiveram a doença ficam latentes ou ativos silenciosos no corpo, promovendo danos ainda em estudo, incluindo nos neurônios. O melhor mesmo é não pegar a doença, pois isto não traz vantagem alguma.

5. A reinfecção na covid-19 existe e deve ter um papel mais detalhado nesta pandemia!

O compromisso da religião é com a fé e o da política, com a coerência de opinião e ideias. Na ciência, o compromisso é exclusivamente com a verdade revelada por métodos e critérios que se aperfeiçoam a cada momento. A verdade filosoficamente não existe e na ciência, é mutante!

(Alberto Consolaro – Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC)

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