Bauru

Alberto Consolaro

A boca é pura emoção

09/10/2021 - 05h00

Reprodução

Na maquiagem da cantora Ana Cañas, a emoção é ressaltada pela boca!

Pela boca que elogia, sai o escárnio com ironia. Da boca que sai a praga, também desce a benção com oração que vem do mesmo coração. Boca quer ser ouvida e notada. A banda Boca Livre que o diz cantando poesia, enquanto o time do Boca Juniors rola a bola e pinta os gramados a desenhar grandes jogadas.

Aquele cara, o “boca grande”, não se contem e revela o segredo que deveria ser apenas da boca pequena sobre o discreto pecador que, de repente, virou um boca maldita a soltar labaredas pelas ventas enquanto o segredo andava de boca em boca. Precisam avisar ao indiscreto que o peixe morre pela boca e se quiser vida longa que tenha boca de siri!

A máscara esconde a boca quente ou fria, ardente ou fétida. As bocas se querem livres das máscaras, mas ainda não dá para ter esta rebeldia. Não gostam das máscaras, mas ninguém se revolta pelo que esconde o biquíni e a sunga. E não me venham com argumentos fracos, pois tem boca que também abunda!

A boca, por ser mania nacional, quer roubar o que não lhe pertence, quer usar também o oral no lugar do bucal. Oral é o que pertence à voz das pregas vocais logo abaixo da garganta e que, alguns, insistem em chamar de cordas, talvez por acharem que sejam um verdadeiro instrumento musical como o violão, violoncelo e violino. Só me falta a boca se inspirar e se auto denominar de nasal, só porque o ar lhe passa também pela sua cavidade.

Bem antigamente, boca rica era quem tinha dente de ouro e prata ao sorrir. Se achava muito chique; hoje é história, mas um dia foi futrica tipo você viu quem pôs ouro nos dentes? O fulano parece que enricou e boca rica até virou nome de loja e já foi apelido de gente importante.

Algumas são chamadas de boca de chaminé ao soltar tanta fumaça cancerígena junto com as ventas. Fico imaginando o que passam as células da boca de um fumante convencional ou eletrônico quando se queimam e se intoxicam numa verdadeira boca do inferno. Na boca do lixo também deve ser difícil viver!

Não devemos nos conformar deixando o tempo passar e ficar com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar, como ironizou Raul Seixas em sua música. Temos que colocar a boca no trombone! Os erros podem ser consertados e quem tem boca vai a Roma! Eeeepppppa, tá errado, gritaria Vera Verão rodando a baiana e pondo a boca no mundo!

O ditado correto é quem tem boca vaia, do verbo vaiar, Roma que no caso representa o poder central. Esta frase nasceu na época do Império Romano e por décadas os cidadãos reclamavam da centralização do poder e da corrupção! Todos vaiavam Roma na esperança que de boca em boca, a vaia geral chegasse no imperador.

Quem inventou os talheres quase foi excomungado pela igreja por inventar algo que intermediasse a comida sagrada para chegar na boca. A energia das mãos com os alimentos deveria se continuar diretamente com a boca que representa no ideário religioso, a porta de entrada do corpo e da alma.

Boca é pura emoção! Quando olho para você me dá água na boca e o meu coração fica logo acelerado! E quantas vezes o coração esteve na minha boca ao te tocar? Na frente de muitos, antes de falar, o coração e mente ficam na boca antes de sair as palavras. Mas, tudo acelera mesmo quando gruda uma boca na outra num roçar e sugar sem parar. Sem a boca, seria impossível viver! Valorizemos.

Observação: Outubro está nas bocas: o dia 3 é dia mundial da odontologia, enquanto dia 25 é o dia nacional do cirurgião dentista.

Alberto Consolaro é professor titular da USP e colunista de Ciências do JC.

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