Bauru

Alberto Consolaro

As incríveis lições dos biofilmes!

06/11/2021 - 09h49

Reprodução

O biofilme (vermelho) inicia com uma camada de bactérias que agregam outros microrganismos unidos (B) pelo gel protetor (G) no microscópio eletrônico

Biofilmes microbianos estão nas lentes de contato, unhas, língua, joias, brincos, piercings e dentes. Mais: nas pias e vasos sanitários, escovas de dentes, sabonetes, massageadores e geladeiras! Micróbios ou microrganismos são vistos apenas no microscópico.

Em superfícies úmidas e ricas em nutrientes, as bactérias, vírus, fungos e parasitas se aderem e produzem moléculas aderentes. Bactérias proliferam a cada 20 minutos e uma atrai a outra e outros microrganismos, logo teremos uma película ou filme de microrganismos recobrindo a área.

PRIMEIRA LIÇÃO

Nos biofilmes microbianos, as bactérias produzem uma meleca de açucares para criar um gel entre si como reserva nutritiva, mas especialmente para não deixar que estranhos entrem na “comunidade” instalada. Não entram anticorpos, antibióticos, antissépticos, células de defesa e enzimas.

Esse gel une e protege a todos. No biofilme microbiano existem canais e ruas onde circulam e passam nutrientes, esgotos e o ar. Até tem janelas e portas para se comunicarem com o mundo. Neste ambiente há civilidade, cidadania e solidariedade. Primeira lição: “Ninguém consegue algo significante sozinho e é necessário ser uma comunidade pensante e atuante”.

SEGUNDA LIÇÃO

Os biofilmes microbianos têm um valor econômico imensurável com interesses poderosos tentando o seu controle. As pesquisas são profundas e amplas envolvendo desde a saúde até a produção industrial. Eles se formam em cânulas, sondas, câmaras, marca-passos, próteses e cavidades como coração, pulmões, boca e seios paranasais. Interrompem fábricas, pois destroem chips levando a severos prejuízos, inclusive nas embalagens.

Observou-se que as bactérias e outros micróbios não conseguem construir e organizar a “comunidade” ou biofilmes apenas com um tipo de bactérias, como por exemplo estreptococos. Sempre precisam de muitas outras espécies, incluindo vírus, fungos e parasitas. Os biofilmes funcionais, organizados e eficientes são os que apresentam a maior diversidade de espécies. Segunda lição: “Iguais juntos na natureza não são eficientes, se requer sempre a diversidade”.

TERCEIRA LIÇÃO

Não temos produto químico intra corporal ou externo que atue desorganizando e dissolvendo os biofilmes, é necessário atuar mecanicamente para remove-los. O biofilme microbiano mais comum é a placa dentobacteriana na superfície dos dentes e na mucosa bucal. Não dá para controlar biofilmes usando antissépticos ou enxaguantes, requer-se a escova, dentifrício e fio dental! Temos que higienizar a boca 3 a 4 vezes ao dia, ou mais! Depois de duas horas, temos novos biofilmes microbianos. A microbiota bucal não desiste nunca! Terceira lição: “Estamos aqui para aprender e sempre isto significa recomeçar”.

REFLEXÃO FINAL

A natureza ensina muito em cada ponto estudado e destruí-la, é ato solene de burrice. Aprendemos com ela até analisando bactérias. Em dias tenebrosos que vivemos, permitam me sugerir três músicas que ouvi ao escrever sobre as lições dos biofilmes microbianos: 1. “É preciso saber viver” de Erasmo e Roberto, na voz de Titãs, 2. “Anunciação” por Alceu Valença, e 3. “Deus me proteja” de Chico Cesar. Vale a pena!

Alberto Consolaro – Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC

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