Bauru

Alberto Consolaro

Quem ‘pega’ a varíola dos macacos?

06/08/2022 - 06h42

Reprodução

Nas baladas, as pegações são comuns como revelou a série "Rio Shore" na MTV e Paramount.

Se tens mais de dois parceiros ao ano, você atingiu o critério de promiscuidade, mas este conceito não tem conotação moral e sim, técnica. Promiscuidade tem a ver com o risco biológico que uma pessoa corre em contrair uma infecção sexualmente transmissível.

Parece lógico que ao ter várias parcerias em um mês, se tem maior risco de contrair a varíola dos macacos do que as pessoas que têm relações sexuais estáveis. Quando se fala em parceiros não necessariamente quer dizer que houve um coito até o final. Uma pegação com abraços, beijos e muitos carinhos quentes, deve ser considerada uma relação sexual. Aquele machucado que parece uma acne inocente, vai perder a casquinha e o conteúdo esfregar na pele e mucosas do outro.

As bolhas e vesículas do herpes simples, como as pústulas parecidas com acnes amarelinhas da varíola, estão cheias de milhões de vírus. Rompeu no beijo, carinho e na esfregação, vai ter vírus para todos os lados na pele de ambos, principalmente na ainda não infectada. Pode ser só uma lesão, mas o suficiente para transmitir e a pessoa pode ainda nem saber que tem a doença!

Um fato importante a ser esclarecido é que o vírus não tem sentimento e nem cérebro para discernir se quem está infectando é mulher ou homem! Se o carinho é feito entre mulheres ou homens, não importa para o vírus da varíola dos macacos, ele vai produzir a doença do mesmo jeito. A biologia do vírus não tem preconceito contra cor da pele, tipo de sexo, grau de escolaridade e nem partido político.

Na balada, é comum beijar várias pessoas com trocas de saliva nas línguas entrelaçadas, beijos no pescoço onde se tem lesões da varíola dos macacos e a mão para cá e para lá, passa-se o vírus livremente. Claro que agora, na clareza e frieza do dia, vai se perguntar: mas a pessoa não vê que a outra está com uma lesão tipo acne ou machucado na pele? No calor da noite, no escuro da balada e no pula-pula dos shows, ninguém vai examinar peles e bocas para beijar quem está do lado! Salve-se quem puder!

Em certos estilos de vida não se têm muita atividade sexual diária ou até se faz sexo uma vez por mês. Nos casos de pessoas com baixa atividade sexual e ainda sempre com a mesma pessoa, o risco de contrair a varíola dos macacos é reduzido. O risco está associado com a quantidade de parcerias (mais de duas a cada 12 meses) e a frequência da troca de parcerias. Mas ...!

PESQUISAS

Pesquisas com brasileiros têm números que nos ajudam a entender por que a varíola dos macacos se espalha: entre as mulheres, 27% têm dois a três parceiros por ano e 21% têm mais que quatro. Os homens, 86% têm mais que três parceiras por ano e, destes, 75% mais que seis ao ano. Em 35% dos homens houve mais de 15 parceiras ao ano.

Quanto a traição: 12% das mulheres traem e 45% dos homens também. Pesquisa do Programa de Estudos sobre Sexualidade da USP mostrou que 48% das mulheres com mais de 25 anos traem e os pesquisadores acharam que estes números estão subdimensionados.

Com este percentual de pessoas que traem sexualmente, temos uma socialização das bactérias, vírus e fungos, assim como das doenças. Por hipótese: - Se você tem parceria sexual com alguém que trai, imagine o risco que você corre! Tem certeza de que ela trai só com você? Você trai, apenas com ela? E você não é traído? A traição é um evento biológico e a varíola dos macacos pode estar neste contexto!

REFLEXÃO FINAL

A covid se pega na aproximação dos corpos, a varíola dos macacos na hora da pegação a aids durante a relação mais íntima entre os humanos. Como diria os avós: que tempos são esses! Ou como diria o clássico narrador de futebol: - Que fase! Ou como diz o filósofo popular: - Nada é por acaso! Vamos refletir?

Alberto Consolaro – Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC.

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