Bauru e grande região

Conversando com o Bispo

Ser Santo É Ser Normal

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por Dom Sevilha Bispo Diocesano de Bauru

03/11/2019 - 06h00

Antigamente a ideia de santidade era tão heroica e extraordinária que nos julgávamos indignos e incapazes dela. Por sermos pequenos, frágeis e pecadores, nos sentíamos incapazes de percorrer o caminho da santidade que seria próprio para pessoas superiores, superdotadas espiritualmente. A narrativa de êxtases e milagres confirmava o caráter extraordinário da santidade que, obviamente, não seria para pessoas ordinárias como nós.

Talvez tenha sido Santa Teresinha a primeira santa a questionar esse modelo de santidade extraordinária e propor a "pequena via", isto é, aceitar e amar a própria pequenez e, na simplicidade, fazer as pequenas coisas com amor. O Papa Francisco também escreveu sobre este tema e propôs uma santidade "caseira". Fazer o bem possível é o caminho para a santidade. O impossível cabe a Deus. Enfim, ser santo é ser normal, e não é fácil ser normal. É grande a luta para estarmos dentro da "norma" humana para a qual Deus nos criou e nos enviou para este mundo com a missão de sermos bons e fazermos o bem, sempre e a todas as pessoas.

É santo aquele que se deixa conduzir por Deus e, por isso mesmo, ele chega ao máximo do seu ser, à excelência do humano, ao topo da sua humanidade. Afinal, fomos criados à imagem e semelhança de Deus, somos obras de suas mãos, somos filhos do Pai celestial, somos templos do Espírito Santo, somos morada de Deus. Sem Deus, o homem se desumaniza e perde a noção da própria dignidade e, consequentemente, não enxerga também a dignidade dos outros. Sem Deus, o homem fica desabitado e no vazio de si mesmo. Só a presença de Deus é capaz de preencher a alma humana e saciar a sua sede de infinito.

O santo tem a profunda percepção da própria dignidade, e também a dos outros, que reside no fato de ser filho amado de Deus. Ele jamais será um abandonado jogado na vida como um órfão, pois sabe que tem um Pai que é Deus. O santo sabe que todo ser humano nunca se torna um lixo, mesmo aquele que se joga a si mesmo no lixo. Basta querer sair do monturo e arrepender-se sinceramente que terá infalivelmente as mãos estendidas do Pai misericordioso que perdoa tudo e que "levanta da poeira o indigente e do lixo ele retira o pobrezinho, para fazê-lo assentar-se com os nobres, assentar-se com os nobres do seu povo" (Salmo 112, 7). A verdadeira dignidade e nobreza do homem está na sua filiação divina e não nas suas qualidades pessoais, nem nos seus sonhos e ideais (bons ou ilusórios, tanto faz!), muito menos nas suas posses materiais ou profissionais. Tudo passa, tudo derrete e se evapora em algum momento da vida, somente permanece o amor de Deus por nós e o nosso amor a Deus e ao próximo.

Obviamente, Deus pode realizar grandes coisas através de pessoas pequenas e fracas como, por exemplo, nos mostra a vida da nossa Santa Dulce dos Pobres, de Santa Teresa de Calcutá e de inúmeros outros santos. De fato, "Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para desacreditar os fortes; e Deus escolheu o que é insignificante e sem valor no mundo, coisas que nada são, para reduzir a nada as coisas que são. E isso para que nenhuma criatura se glorie diante de Deus" (1Cor 1, 27). Portanto, nossa fraqueza e pequenez pessoal que, infelizmente, nos fazem errar e pecar, não podem ser motivo para nos desanimar de combater o bom combate, de enfrentar com coragem a difícil luta diária da vida, colocando amor onde não tem amor. Enfim, a nossa fraqueza não pode ser desculpa para não sermos santos. Afinal, Deus nos pede que sejamos santos, não anjos. Santos tem carne, nervos, ossos, emoções, pulsões, sangue e suor. Mas tem também habitado no misterioso centro mais profundo de si mesmo, o próprio Deus. Resumindo, a nossa "santidade" é somente o reflexo da santidade de Deus que habita em nós. Só Deus é santo.

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