Bauru

Reflexão e Fé

Conforto na tristeza

Hugo Evandro Silveira Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril. E-mail: [email protected]

18/07/2021 - 05h00

Nunca estive perto de tantas pessoas enlutadas como nesses últimos meses. No ofício de pastor tenho ouvido repetidamente nesses dias declarações de temor, lamento e saudade. Declarações a fim de tentar dar sentido à perda ou para encontrar conforto no meio da perda. Pesarosos com a partida de um ente querido repetem: "Ela era uma pessoa boa demais", "Ele não merecia morrer assim tão cedo" ou, "Ele está em um lugar melhor". Quando estamos assolados na perda de alguém que amamos, procuramos algo sólido a agarrar a fim de encontrar um mínimo de estabilidade na tempestade da tristeza, de ter um pouco de luz no oceano da escuridão.

Algumas das coisas a qual nos agarramos são profundamente verdadeiras e nos firmam na tempestade. Mas outras emanam de uma esperança vazia e de crenças superficiais populares. Podem até soar bem, mas simplesmente não são verdadeiras. Algumas das coisas que soam alentadoras e que dizemos a nós mesmos, ou ouvimos os outros nos dizerem, em meio à tristeza, não têm base na realidade e contradizem a fé cristã que a maioria da nossa população brasileira diz crer.

CS Lewis, autor das Crônicas de Nárnia, escreveu: "Conforto é a única coisa que você não pode obter procurando por ele. Se você procurar a verdade, poderá encontrar conforto no final. Se você procurar só conforto, não o obterá e nem a verdade, apenas um superficial pensamento positivo mas, que no final, será desespero". Quando buscamos algo a nos agarrar que gere paz em meio ao luto, ou enquanto buscamos palavras a alguém que está sofrendo, devemos procurar ter certeza de que aquilo que estamos nos agarrando, ou oferecendo ao outro, é profunda, plena e eternamente verdadeira.

É lícito pensar nesses dias enlutados: "Quais as coisas profundas, plenas e eternas que podemos nos agarrar em meio a tristeza e que servirão como âncora da alma quando os ventos e as ondas do pranto vierem ameaçando nos derrubar para sempre?". Nossos pensamentos e nossas palavras realmente importam, sobre tudo a nós mesmos. O que poderemos dizer a nós mesmos entre soluços naquele dia onde temos mais perguntas do que respostas, quando o vazio invade aquelas noites intermináveis em que a ira e o inconformismo dominam o nosso coração? Será que nesses momentos de choro e derrota, o cristão, pode confiar em Deus? Creio que você pode confiar em Deus com toda a sua força e de toda a sua alma.

Confiar em Deus contem todas as implicações que trazem paz em meio aos pensamentos e emoções caóticas. Posso sim confiar em Deus, mesmo na morte de um ente querido. Posso confiar em Deus nas incógnitas sobre meu futuro. Posso confiar em Deus em minhas perguntas sem respostas até que a fé se torne visível. Posso confiar em Deus para curar a ferida. Posso confiar em Deus para preencher o vazio. Posso confiar em Deus para iluminar a escuridão. Posso confiar em Deus para restaurar a alegria. Posso confiar que Deus fornecerá graça suficiente e poder divino para eu enfrentar o que ainda virá pela frente. Posso confiar que Deus fará com que até a tempestade de alguma forma resulte para o meu bem e para o bem de todos os outros afetados. Posso confiar em Deus em que sua promessa de ressurreição é real, está chegando e, valerá a pena toda espera e sofrimentos momentâneos. Posso confiar que Deus fará o que é certo, mesmo que eu não saiba o que Deus fará. Então posso colocar a minha confiança em Deus que é misericordioso e infinitamente gracioso e, mesmo que eu não entenda ao certo o que esteja acontecendo, posso confiar em Deus e em sua salvação eterna.

Quando a tristeza parecia zombar de sua confiança em Deus, o salmista escreveu: "Minhas lágrimas têm sido meu alimento dia e noite, enquanto as pessoas me dizem: 'Onde está o seu Deus?'" (Salmo 42.3). Nessa crise o salmista foi capaz de questionar intencionalmente à sua própria alma: "Por que está abatida ó minha alma, por que está perturbada dentro em mim? Espere em Deus; pois ainda o louvarei, minha salvação e meu Deus" (Sl 42.5). Em vez de dar ouvidos aos seus próprios pensamentos desesperados, ele questionou com a verdade a seus próprios pensamentos. Ele não caiu em crenças superficiais populares, mas desafiou os seus enganosos sentimentos. Ele promulgou esperança divina à si mesmo. Podemos fazer assim também, ainda que em meio às lágrimas, no meio de uma tempestade, confiar em Deus, conforto obter, sempre nEle confiar.

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