Bauru

Reflexão e Fé

Terrivelmente evangélico

Hugo Evandro Silveira Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril. E-mail: [email protected]

05/12/2021 - 05h00

No dia 01 de dezembro de 2021, o Dr. André Luiz de Almeida Mendonça foi aprovado na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça e na votação no Plenário do Senado para ser o novo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). Foram quase 4 meses de espera desde a sua indicação pelo Presidente Jair Bolsonaro. Seu nome causou polêmica pelo fato de o Presidente ter dito publicamente que um dos critérios para a sua escolha foi o fato de ele ser "terrivelmente evangélico", afinal ele é pastor evangélico da IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) com formação teológica. Na área do direito tem formação pela Instituição Toledo de Ensino (ITE) Bauru SP, membro da Advocacia-Geral da União (AGU), possui doutorado em Direito na Universidade de Salamanca, na Espanha.

POLÍTICA E RELIGIÃO

Pelo fato de também ter formação teológica, a conquista de uma vaga na Suprema Corte fez André Mendonça enfrentar obstáculos incomuns. Críticos afirmaram que a religião não deveria ser um critério para a nomeação de um ministro do STF. E não deveria mesmo. Mas o fato é que André Mendonça é um profissional com notório saber jurídico. Por ser ele, pastor evangélico, estaria a sua indicação ferindo o estado moderno, laico e democrático? Ocorre que as dificuldades das relações entre política e religião é antiquíssima, remontando os antigos impérios do mundo. A religião sempre teve uma relação de subserviência com o estado. Na república romana a religião servia de instrumento de coesão social; o imperador era também o sumo pontífice, autoridade máxima da igreja, modelo copiado séculos mais tarde pelo absolutista Henrique VIII (Inglaterra - XVI).

CONCEITO PROTESTANTE

Foi o protestantismo (XVI) tendo como fonte a mensagem de Jesus, que gerou o conceito de separação igreja e governo. A própria relatora na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado da indicação de André Mendonça a vaga no STF, Eliziane Gama (Cidadania-MA), afirmou em seu depoimento: "Ao se escolher um Ministro para a Suprema Corte devemos nos ater à preservação do estado moderno, laico e democrático. É importante salientar com ênfase e vigor que a Reforma Protestante foi o vetor fundamental para a construção da democracia ocidental, tal como a conhecemos hoje". É fato. A construção de um Estado laico foi resultado de todo um processo histórico iniciado pelo movimento da Reforma Protestante. Esse saber é de grande importância num tempo em que líderes religiosos demonstram cada vez menos compreensão sobre esse tema. Basta uma rápida pesquisa para se verificar que a falta de delimitação entre a esfera política e religiosa nunca trouxe benefícios duradouros para ambos os lados. Disse Jesus: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22.21). Além disso: "Jesus respondeu: — O Meu Reino não é deste mundo! Se o Meu Reino fosse deste mundo, os Meus seguidores lutariam para não deixar que Eu fosse entregue aos líderes judeus. Mas o fato é que o Meu Reino não é deste mundo!" (João 18.36). O cristianismo portanto, nunca se prestou a ser um instrumento político. O cristianismo se ocupa da salvação da alma, logo, é superior ao Estado. Quem fala de democracia moderna e não conhece o legado cristão através do movimento protestante de Martinho Lutero, João Calvino e outros, nada sabe sobre o assunto, deve-se ressituar.

PROTAGONISMO EVANGÉLICO

É natural que evangélicos cada vez mais assumam o protagonismo nos vários segmentos do país no setor privado e público, já que atualmente trata-se de uma grande parcela da população; assim como outros grupos religiosos também possuem participantes nos diversos segmentos da sociedade. Contudo é indissociável o fato, de que o livre pensamento, desenvolvido na civilização ocidental, sobretudo nos países avançados, deve-se ao legado judaico-cristão. Centenas de pensadores já descobriram esse elo há décadas. O fato do país ser laico, não significa que a política estará desprovida da crença pessoal de quem a faz. Cada um carrega seus valores de fé, até quem crê só na razão. Todos trazem um legado. Um juiz naturalmente tende a exercer seu ofício iluminado por seus valores e impressões pessoais, mas deverá fazê-lo, sempre sob a rígida constituição legal. Portanto o critério para uma vaga no STF, não deve considerar se o candidato é evangélico, católico, ateu, branco, negro, homem ou mulher e etc. — mas mesmo com seus valores pessoais, que seja acima de tudo constitucional, capacitado e de reputação ilibada. Um ministro que diz honrar a Deus, quem sabe ajude a resgatar valores divinos tão necessários a uma suprema corte.

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