Bauru e grande região

 
Wagner Teodoro

Critério e perfil

18/10/2020 - 05h00

Os grandes paulistas vivem tempos turbulentos. Corinthians fugindo da degola, São Paulo ainda sob desconfiança dos torcedores, Santos no apuro financeiro e envolvido em polêmicas extracampo e Palmeiras mergulhando em uma crise. Em uma definição: pressão total. O Palmeiras resolveu que o tempo de futebol pouco vistoso e criativo com Vanderlei Luxemburgo estava esgotado. Demitiu o veterano treinador e, segundo a diretoria, vai buscar com calma alguém que se encaixe em um conceito de futebol ofensivo, moderno e que dê orgulho à torcida. A ordem é cautela para não se equivocar, a busca pelo erro zero na escolha de um profissional que tenha vida longa no clube.

Aparentemente, o Palmeiras planeja, preferencialmente, importar um treinador. O espanhol Miguel Ángel Ramírez, do Independiente Del Valle, e o argentino Gabriel Heinze, ex-Vélez Sarsfield, seriam alvos. Ramírez é um técnico que preza o jogo coletivo, muita intensidade e ofensividade. Ele já deu declarações dizendo que seu estilo não é aplicável em determinados clubes. É um cara capaz de golear o Flamengo por 5 a 0, em Quito, e tomar 4 a 0, no Rio, sem abrir mão de sua proposta. Aferrado a seus conceitos de futebol. Heinze é tido como temperamental, exigente e perfeccionista.

Personalidades fortes que vêm juntas com conceitos. É preciso, além do modelo de jogo, analisar também como o perfil do contratado vai se moldar ao elenco. Quando o São Paulo contratou Fernando Diniz sabia no que estava apostando. Se o Tricolor é o "Clube da Fé", aparenta manter mesmo crença no trabalho do treinador, apesar de tantos percalços e críticas da torcida. Pelo menos até a próxima eleição presidencial no Morumbi.

Sotaque hispânico

A 17ª rodada do Brasileirão começou com uma tríplice igualdade entre os primeiros colocados, todos com 31 pontos. Pelos critérios de desempate, o Atlético-MG liderava, seguido por Internacional e Flamengo. O que os melhores times do Nacional até aqui têm em comum? Os três são comandados por técnicos estrangeiros. São dois argentinos, Jorge Sampaoli e Eduardo Coudet, no Galo e Colorado, respectivamente, e o espanhol Domènec Torrent no Rubro-negro.

Coincidência? Talvez. Há inúmeros casos de técnicos gringos que fracassam no Brasil. Mas é certo que as diretorias destes clubes apostaram em um conceito de trabalho, um modelo de jogo, quando contrataram seus treinadores. Claro que bons elencos também são fundamentais. Mas Sampaoli foi vice-campeão com o Santos no ano passado tirando muito de pouco. O "sotaque hispânico" anda mesmo soando forte nesta temporada.

Marketing negativo

Um clube que vem há dois anos sem patrocínio máster e enfrenta grave crise financeira tem a oportunidade de repatriar um ídolo, um jogador com o DNA de suas cores, campeão. E ainda, em um primeiro momento, por um custo simbólico. Parece ser uma ideia genial. Uma oportunidade única. Mas não é, se este ídolo está envolvido em uma acusação de estupro e foi condenado em primeira instância. O plano do Santos de contratar Robinho para quem sabe, mesmo veterano, ser mais um pilar técnico, além de uma referência na imagem do clube, se mostrou um gol contra. Parte a torcida se revoltou e a maioria dos patrocinadores não achou uma boa estratégia atrelar sua marca a um personagem mergulhado em caso tão grave.

Não se trata de condenar ou absolver Robinho. Quem vai fazer isso é a Justiça italiana. E há ainda mais duas instâncias. Mas o fato é que o plano se mostrou tão desastroso que o Santos teve que mudar de ideia e suspender o contrato com o atacante. O clube se viu pressionado pela opinião pública, por protestos de seus próprios torcedores e acuado por uma maré de ameaças de rompimento de cotas de patrocínio.

Se persistisse na intenção de contar com Robinho, o prejuízo seria milionário aos já combalidos cofres alvinegros. Com a imagem arranhada e à beira de uma conjuntura financeira insustentável, o Santos optou por desistir do reforço. Mas será que em nenhum momento alguém da diretoria, algum profissional da área de marketing santista, sequer pensou em fazer uma análise do risco de mercado da polêmica contratação?

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