Bauru

Wagner Teodoro

Torneio da discórdia

06/06/2021 - 05h00

A realização da Copa América no Brasil deflagrou uma crise de dimensão nunca vista antes entre comissão técnica e elenco da Seleção Brasileira e a cúpula da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), tornando-a o "torneio da discórdia". E vimos algo raríssimo e histórico: jogador de futebol brasileiro se posicionando. Em singular caso de unanimidade, o grupo canarinho entende que o momento não é ideal para se jogar um campeonato em solo nacional, com a pandemia de coronavírus ainda completamente descontrolada por aqui.

Avalia também desrespeitosa por parte da direção da entidade que comanda o futebol brasileiro a forma como foi efetivada a mudança de sede - a Argentina declinou justamente por causa da situação da Covid-19 lá e a Colômbia não pôde sediar por turbulências sociais - sem ao menos comunicá-los. Analisam que jogar um campeonato que não classifica para nada neste momento é um equívoco e que seriam o foco em meio ao avanço das mortes no Brasil para 500 mil.

De fato, a própria realização do torneio nesta época, independentemente de onde seria sediado, é um despropósito em um continente tão afetado pela pandemia e não atende a quaisquer objetivos que não sejam financeiros de entidades e patrocinadores. Esportivamente, a Copa América poderia ser adiada ou mesmo cancelada sem ocasionar nenhum dano maior.

O gesto do grupo que está na Seleção causou um desgaste gigantesco com o comando da CBF. Aliás, uma das tormentas que a entidade enfrenta. A insatisfação é tão grande que existe a possibilidade de saída do técnico Tite, que foi tratado como insubordinado por apoiar a posição de seus jogadores. Além disso, o presidente da entidade, Rogério Caboclo, enfrenta uma dupla fritura. A "corrosão" interna com a revolta de quem veste a camisa, de quem entra em campo, seja no banco ou no gramado, e a seríssima acusação de assédio moral e sexual de uma funcionária da CBF da qual é alvo. O dirigente se vê em uma situação praticamente insustentável.

Vai sobrar para os clubes

Mas vai ter Copa América. E, no fim, as dez seleções do continente vão jogar. O Brasil vai estar em campo, com o atual técnico ou não. Muito provavelmente o elenco que agora atua nas Eliminatórias não representará o País. E vai sobrar para… o seu clube. Sim, o seu time, que já enfrenta uma maratona sem precedentes. Que já fez jogos a cada 48 horas. Que briga para equilibrar as finanças sem público, com queda de receitas de patrocínio. Seu clube é bem provável que sofra baixas no elenco.

Se chegarmos a uma Seleção formada somente por jogadores que atuam no Brasil, será que o Campeonato Brasileiro vai parar? Ou entrarão em campo equipes desfiguradas? E, mais, será que os dirigentes dos clubes nacionais vão se posicionar, como fez o grupo que está na Seleção, se tal cenário se configurar? Ou vão entender que está tudo certo e silenciarão?

O desinteresse do torcedor brasileiro pela Seleção é notório desde o penta. Cada vez mais o escrete nacional está longe da prioridade de quem acompanha futebol. Exceto em momento de Copa do Mundo, quando existe um clima de Carnaval que pouco tem relação com quem acompanha futebol de fato. Mas a Seleção sempre está aí nos holofotes quando desfalca time A ou B. Quando algum jogador é convocado e coincidentemente acaba negociado pouco tempo depois com o "passe" valorizado. Mais uma vez, as atenções se voltam à equipe verde e amarela. Vai prejudicar os clubes já tão afetados ao longo a pandemia?

Autoavaliação alvirrubra

Já o Noroeste, eliminado nas quartas de final da Série A3 do Campeonato Paulista, passa por um momento de autoavaliação. Novamente foi feito um investimento importante, formados elenco e comissão técnica qualificados e o objetivo do acesso ficou pelo caminho. A cúpula alvirrubra se reuniria neste final de semana para definir os rumos do clube a partir de agora. Boa parte do elenco, além da comissão técnica, tem vínculo. Mas há o consenso de não segurar ninguém. Se surgirem propostas, a tendência é o clube liberar com possibilidade de retorno em 2022. O contrato com o fornecedor de materia esportivo prevê a disputa de campeonato no segundo semestre. Portanto, a Copa Paulista - ainda sem qualquer definição por parte da Federação Paulista de Futebol - está nos planos. Falta definir perfil de elenco.

 

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