Bauru

Wagner Teodoro

Calor e valor

09/01/2022 - 05h00

Há empresas para todo tipo de produto que o mercado exige, precisa ou simplesmente quer. Desde artigos de primeira necessidade até caprichos que extrapolam o supérfluo. Mas existe uma empresa que produz emoção, que lida com a passionalidade como matéria-prima: o clube-empresa de futebol. Não, aqui não há nenhuma ingenuidade sobre a lógica de que negócios são negócios. O "mundo SA" gira em torno do capital e todo empreendimento busca o lucro. Ninguém investe em clube no modelo de Sociedade Anônima do Futebol para perder dinheiro. 

Mas junto com a possibilidade de contratar e repassar jogadores gerando receita, de revelar alguma joia que se transforme em uma mina de ouro e outras várias possibilidades de obter dinheiro no mundo do futebol, essa empresa tem uma característica peculiar: ela tem "sócios", que lhe agregam boa parte de seu valor, mas que têm uma expectativa e visão "de negócio" um pouco diferente. Para os torcedores, o clube estar saudável financeiramente é importante, mas ganhar, conquistar título, é fundamental.

E o equilíbrio entre o business frio do investidor, que prioriza valor, e o calor da paixão do torcedor nem sempre se tempera. Não faltam clubes na Europa que possuem donos odiados por sua torcida em casos de expectativa e realidade dissonantes.

Nesta semana, a "lua de mel" entre Ronaldo e torcida do Cruzeiro foi abalada. O goleiro Fábio, um dos maiores ídolos do clube e recordista de jogos com a camisa cruzeirense, foi dispensado e houve manifestação contra Ronaldo e gestores da SAF. Ocorre que o clube tem uma dívida de R$ 10 milhões com o atleta e o Cruzeiro SAF herdaria a obrigação de quitá-la.

Na frieza do ambiente corporativo e na missão de sanear e reorganizar o Cruzeiro não houve espaço para exceções e optou-se pelo desligamento do ídolo. Fica claro que, desculpem o trocadilho, o Cruzeiro terá que andar no azul custe o que custar.

Assim, Fábio entra na fila de outros tantos credores para receber dentro do que os 20% do faturamento cruzeirense vai pagar. O processo de transformação em SAF não é simples e exige sacrifícios. Ninguém investe de graça. Administrativamente pode estar certo, mas é triste para qualquer torcida ver um ídolo sair desta maneira insensível. Quem trilha este caminho precisa estar preparado para episódios difíceis, inclusive o Noroeste. O processo raramente será indolor. Calor e valor nem sempre andarão de mãos dadas.

"Drama" desnecessário

Novak Djokovic, gênio dentro das quartas, protagonizou mais um episódio lamentável fora delas. Sem apresentar comprovante de vacinação, o atual número 1 do tênis teve sua isenção para poder entrar na Austrália e jogar o primeiro Grand Slam do ano cancelada e pode até ser deportado. Nole é notório antivacina. Barrado no aeroporto, transformou a situação em um dramalhão constrangedor.

Djokovic está chateado por não poder jogar o Aberto da Austrália. As autoridades australianas adiaram seu recorde de Slam... Mas fico com Rafael Nadal. O espanhol lembrou que Djoko poderia atuar em Melbourne tranquilamente. Bastaria seguir as regras que outros estão seguindo. O fato de não apresentar comprovante de vacinação tem consequências com as quais ele tem que arcar. Que assuma seus atos e aguente o que vier.

Certíssimo está o governo australiano. Não há que ter exceção. A rígida política de fronteira do país o garante como um dos mais bem-sucedidos em todo o mundo no combate à pandemia de coronavírus. E mais, vacinação não é ato individual. Em uma doença coletiva, vacinar-se salva vidas alheias. O governo da Austrália tem compromisso com sua população. Ficar sem o número 1 do mundo no gigante torneio não é nada se a simples presença de Djokovic significa o risco desnecessário à saúde pública.

Detido, o tenista será julgado e pode até ter permissão para continuar na Austrália. A defesa argumenta que ele teve Covid-19 em dezembro, quando foi visto, dois dias antes de testar positivo, em torneio de basquete tirando fotos e abraçando jogadores das equipes, e estaria nas regras de isenção.

Mas nada apaga mais um péssimo exemplo em sua trajetória - lembrando que ele organizou torneio na Sérvia em plena primeira onda da pandemia, com direito a balada, e o evento se tornou uma "bomba biológica", com muita gente se contaminando, inclusive o próprio Nole -, com atitude extremamente egoísta, que prega o direito da escolha individual se sobrepor ao bem coletivo em meio ao avanço de nova variante do coronavírus. Já perdeu Djokovic, o Aberto da Austrália e o tênis, que tem um ídolo tão completo em quadra e tão vazio fora dela.

Ler matéria completa

×