Bauru e grande região

Tribuna do Leitor

TINHA UMA PORCA NA MESA

13/12/2011 - 07h00


Fui assistir no penúltimo sábado, dia 3 de dezembro, na Casa Ponce Paz, a última sessão do espetáculo "Lapsos Lacerados". Fiquei impressionado com o que vi e de lá só consegui sair após ver o desfecho de todo aquele universo teatral. Trata-se de um trabalho muito sério, de pesquisa, entrega e laboratório por parte de todos os envolvidos, especialmente do elenco: gente nova fazendo teatro de altíssimo nível, sem preconceitos, dilacerando a hipocrisia do ser humano, discutindo valores e incomodando a inércia dos nossos sentimentos. Tudo foi muito bem cuidado; cada detalhe da cenografia ajudava a criar um universo à parte: as taboas queimadas do quarto da menina, o carvão do chão, o guarda-roupa aberto com os vestidos, o oratório, o revólver antigo na boca da atriz, as bonecas macabras do baile, a banheira do quintal, a água do telhado, a areia da escada. A base de todo o espetáculo está centrada nas lembranças da infância. Boas ou ruins, o que importa é que elas influenciam o presente, causam feridas, deixam traumas ou nos fazem sentir crianças a vida toda. É o meu caso; eu sempre tive medo de ser adulto. Ao contrário dos personagens do espetáculo, a minha infância foi o período mais intenso e belo da minha vida.

É de lá que tiro toda a inspiração para escrever os textos do Atuacaec. Me identifiquei muito com a proposta de Lapsos. Fiquei feliz ao ver que a Divisão de Ensino às Artes da Secretaria de Cultura não está brincando de fazer teatro e sim buscando um caminho sério, experimentando linguagens, saindo dos limites do tradicional palco italiano e quando isso acontece conseguimos enxergar que todo o espaço é teatro. A Secretaria de Cultura está dando liberdade de expressão aos seus instrutores e isso é a base para qualquer trabalho sério. O jovem Fábio Valério já nos deu uma amostra do que vem pela frente. É um presente que Bauru merece e se orgulha de receber. Ao entrar em cena na última hora para substituir uma das atrizes, Fábio nos brindou com uma bela atuação.
Quanto ao título desta carta: "Tinha uma porca na mesa", tinha mesmo e eram duas. Foi a cena que mais gostei. Também não sei por quê. Apenas vivi cada instante daquele universo escuro, surreal, forte, sexual, doce, bruto, sujo, expressionista e louco. Depois só me restou purificar com todos os presentes na belíssima cena do banho e quando pensei que nada mais iria acontecer, vi a morta se levantar da cova. Me lembrei de Roberto Malini e seu caixão de praça em praça de Bauru. Voltei pra casa com mais vontade de fazer teatro. Parabéns a todos. Bauru já não está mais sozinha no Teatro em Casa. Já temos o Tiago da Casa da Vó Celina, o Fábio da Casa Ponce Paz, o Roberto das Praças e tantos outros, gente de arte, garra, fazendo de Bauru um palco sem limites.

Manoel Fernandes do ATUCAEC ? Teatro em Casa