Bauru e grande região

por Célia Regina Rodrigues

25/08/2019 - 06h00

Nasci em árvore de cedro não sei dizer quando, mas por volta de 1943, na casa da família Rodrigues, quando residiam no Jardim da Grama, em Bauru, confeccionada pelas mãos do carpinteiro Teodoro Gavaldão, ganhei forma de mesa. Da habilidade dele com as pranchas de madeiras de cedro, serrote, formão, graminha, plaina, martelo, lixa, esquadro, ganhei forma..., confeccionada ali mesmo, na sala da casa.

Família grande, seo Lázaro, dona Brígida Amélia e seus 10 filhos: Irineu, Irene, Elza, Armando, Hildebrando, Neusa, Rinaldo, Nilce, Celso, Nilza. Celso, era apenas um garotinho de 5 ou 6 anos, às voltas com suas brincadeiras com seus irmãos. Quanta vida havia ali naquela casa!!!

Fui confeccionada de tal forma que pudesse abrigar a todos. Um banco para as crianças menores e nove cadeiras com assento e encosto de palhinha finalizavam a composição. A grande gaveta sob o tampo guardava os utensílios de cozinha e talheres. E de vez em quando deixava joelhos e coxas roxos ou arranhados num belo sopetão. Da casa na Grama, nos mudamos para a fazenda no bairro Pirapitinga. E lá continuei a celebrar a fartura da cozinha e a reunião daqueles que amamos.

Sentaram-se junto a mim os 12, durante décadas. Aqui se fez e partilhou o pão de cada dia. Aparei iguarias inimagináveis... da leitoa, carneiro ou "cabrito" assado, ao doce de leite de cabra - que afirmavam que cheirava à bode! Bacias de pasteis, para alimentar tantas boquinhas; bolinhos, frango caipira, polenta cortada na linha. Fui testemunha da fartura e de muito trabalho.

As vezes no meu silêncio ainda parece que ouço o tirintar dos talheres, pratos e copos; as gargalhadas e conversas daquela gente. Com eles e para eles, abriguei alimentos, brincadeiras e jogos, tarefas de crianças, ouvi conselhos e segredos, aparei lágrimas, sorrisos, ouvi modas de viola no rádio, aparei a lamparina. Testemunhei nascimentos, a vida, a infância barulhenta, a mocidade viçosa, a maturidade, a vida nos seus melhores e piores momentos. Alegrias e tristezas, o suor dos dias de trabalho em inverno e verão, de sol a sol, ou em dias de chuva; negócios, casamentos, a felicidade, a morte, a passagem de gerações.

E com o tempo, há o tempo!... Sentaram-se também aqui, filho, nora e netos: Celso, Odete, Silvana, Sônia, Celso, Célia e Maria Cláudia. E depois, você Celsinho - neto - e sua família: Celso, Georgia e Helena. E depois, ...

Já faz quase três anos que estou em novas paragens. Depois da vida na Pirapitinga, agora respiro novos ares na cuesta de Botucatu. Depois de algum tempo voltei a participar de brincadeiras de esconde-esconde de crianças, a aparar lindos desenhos caprichosamente pintados com lápis de cor, e bilhetinhos, escritos em lápis acalcados, por mãozinhas que ainda estão aprendendo a dominar o lápis, o papel, a força e os movimentos, e quase deixam os recados impressos em meu tampo.

Sempre reuni ao meu redor a família, parentes e amigos para celebrar a vida, o trabalho, as amizades, a hospitalidade. E assim é, e assim será, até o momento em que os que vierem se permitam celebrar com todos os demais!

Como a vida é interessante! E vez ou outra me pego pensando como um simples móvel como eu pode ter uma rica história na vida das pessoas e tanta energia positiva de fartura e união na vida delas?! Recebo amigos e familiares para o almoço, o jantar, o café, um lanchinho, onde não falta conversa, riso e pessoas batendo papo por horas. Sabe, as vezes penso, que também fui e sou responsável pela união destas pessoas. Como é bom ter as crianças, os jovens, adultos e os mais velhos da família sentados ao meu redor, tomando um café, um vinho, uma cerveja, beliscando um bolo, um queijo, um pão, ou juntos em oração. Uni gerações e até pessoas desconhecidas, que aqui ao meu ladinho, em pouco tempo ficaram amigas. O menino Celso, que sempre esteve por perto de mim, já conta 83 anos. E nossas histórias se cruzaram ali no chão da sala de uma casa da família: eu tábua, ele menino; e acredito que juntos vivemos bons e belos momentos da vida. É o tempo agindo... trazendo significados...

Não é de hoje que nós mesas temos um grande significado para as pessoas. Não foi à toa que a imagem da Santa Ceia tem Jesus e os doze apóstolos, diante de uma mesa com alimentos e vasilhas de bebidas. A mesa da Santa Ceia é a mesa de cada casa. A mesa da Santa Ceia sou eu também!

Que venham novas gerações! E que eu possa sempre recebê-las...

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