Bauru e grande região

Tribuna do Leitor

Apenas um latino-americano

por Fernando Ordani

12/01/2020 - 06h00

Sou bronze na pele, bronze no peito, sou terceiro... sou latino, filho do mediterrâneo e do Sol que fez em minha pele esta cor. Sou aquilo que se pode ser, extremidades exacerbadas... afeito ao torpor; Entre o branco e o negro, prefiro o meio termo... Sou assim, passional, quase que digno de ser chamado por racional, sou filho do amor;

Primeiro de toda conjugação...terceiro, para olhos de indiferença que recusam em me ver... Prefiro viver perpassando por entre pessoas iguais a mim... distintas por demais para que possam me julgar, sem ao menos conhecer. Voz ativa, gente passiva... permissiva, irascível contradição em forma humana de estranha coloração meio marrom, singulares formas de vida;

Dívidas... desde o berço ingrato da pátria que me pariu, acúmulo de culpas e feridas, cicatriz de superação daquele tombo de outrora que levou e um olho do cego não viu... mas, sorriu. Sou, bronze na pele, no peito... bom demais digo para mim mesmo, para que fosse digno do ouro, colher de alguma glória os louros... contudo, me contento com uma lágrima de desgosto em sempre ser terceiro;

Segundo, prata... por vezes, mas esta cor de mim difere, não sou nórdico, caucasiano... sou mistura de português com italiano, me farto com bananas... sou vagabundo!

Subjugado desde a conjugação...sucesso por estas bandas de cá, somente por raras oportunidades, oportunismo, ou intensa transpiração!

Agradeço todos os dias de joelhos a quem me fecha no rosto uma porta que convidava a entrar, pela fresta vejo a festa de um povo puro sangue, próximos da perfeição. À espera sempre por um sim a cada dia que nasce com cara de repetição de não;

Sou o típico brasileiro, povo dócil, hospitaleiro... sou bronze, sou colorido em um mundo onde impera a voz do cinza, com um buraco negro no peito ao invés de coração;

Sou assim... sou assado, passei do ponto, sou somente por hoje e amanhã... sou passado resignado; Sou latino, não tenho cor, mas tenho sabor... cheiro mal o suficiente para ser notado e desprezado... Carrego a rocha nas costas todos os dias, carrego a tocha da pira que se acende para os iludidos e alienados.

Correndo em um chão acidentado, pés descalços, recursos escassos, todo dia me refaço, sem condição de competição...

Prantos de um peito sofrido, explicam as lágrimas... que não se comovem pela letra ou melodia do hino que agora por minha vitória toca, meu Estado sequer me reconhece como cidadão. Prazer, meu nome é latino, minha arte é o improviso, meu sobrenome é superação.

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