Bauru e grande região

 
Tribuna do Leitor

Uma experiência de Orgulho

por Leandro Douglas Lopes - Advogado; especialista em Jurisdição Internacional e Tutela de Direitos Humanos; mestre em Direito Constitucional; atual Corregedor Geral do Município

28/06/2020 - 05h00

Eu já fiz uso deste espaço várias vezes.

Este jornal, democrático e sensível às diferenças, nunca se eximiu de dar visibilidade aos invisíveis e, para alguns, até indesejáveis. Muito obrigado!

Na maioria das vezes, por aqui, fiz manifestos jurídicos, no intento de garantir proteção às minorias sexuais e populações em estado de vulnerabilidade. Hoje, ouso fazer diferente.

Nasci em uma família tradicional, de formação católica, com valores éticos e morais comuns à classe média. Fui educado nesse contexto, da necessidade de estar ajustado ao padrão social dominante. Quando criança, inúmeras vezes, fui "corrigido" pelos meus pais e avós. Eles, no propósito da proteção, me blindaram da chacota e do bullying na escola. Na adolescência, cercado de mulheres fortes (que estarão para sempre em mim), fui adquirindo percepção do mundo. Faltava-me, porém, autoconhecimento e autodeterminação, o que só experimentei na vida adulta.

O tempo passou. A tentativa de ser "normal" fracassou. Fui aos psicólogos e psiquiatras. Fiz uso de ansiolíticos para anular desejos. Por acaso, conheci um rapaz. Senti algo estranho, inédito e irresistível. Um amor avassalador. Era, enfim, o remédio que me faltava. Foi difícil, extremamente sofrível, mas também era inadiável. Como encarar a família, os amigos e o grande monstro: os outros? A fórmula mais imediata foi tentar passar despercebido. Descobri, adiante, que destacar-me no trabalho era uma forma de amenizar essa diferença que, aparentemente, me excetuava.

Conheci outros que eram iguais ou semelhantes a mim. Depois, tantos outros que não tiveram as mesmas oportunidades e que foram privados de sua dignidade. O meu silêncio, então, seria uma forma de convalidar atrocidades. Rebelei-me. A vida me levava à militância LGBTI. Foi em solo árido que plantamos a semente da liberdade. Ela vingou. Criou raízes, tronco, galhos e até flores e frutos. ABD, CADS e OAB foram jardineiros diligentes. Em Bauru, avançamos muito. No âmbito estadual e nacional, também. Mais recentemente, um período de seca tenta nos devastar.

Eu sou o resultado um menino gay, que sofreu imensamente, mas que sofreu infinitamente menos do que outros LGBTI, apenas por ser o que se é. Então, no Dia do Orgulho LGBTI, o meu relato é apenas uma tentativa de aproximação de mundos. Há muitos que ainda insistem na negação de direitos e identidades.

Eu tenho orgulho de assumir-me publicamente gay, não por provocação, mas pela comprovação de que impor-se é também opor-se à discriminação e ao preconceito.

Em tempos de retrocessos, a nossa luta aumenta. O amor sempre vencerá!

Ler matéria completa