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Tribuna do Leitor

Masculinidade tóxica e o ódio ao feminino

por João Pedro da Costa

13/09/2020 - 05h00

Quando criança, recebi forte influência masculina do mundo ao meu redor. Lembro bem que certas atitudes eram reprovadas, como chorar. Ouvia com frequência frases como "homem não chora" ou o clássico "engole esse choro". Desde cedo meu relacionamento com o feminino era restrito e me privaram dele. Uma conversa pessoal e banal em casa com minha mãe era proibido, o laço materno foi rompido ainda muito jovem. Acontece que recebi influencia feminina de minhas tias, pois todas eram mulheres e este universo se fazia presente.

Robert Stoller, uma de minhas leituras atuais, famoso psicanalista e criador das primeiras ideias hoje amplamente discutidas sobre identidade de gênero, levantou uma certa hipótese de que talvez a fuga masculina para a pornografia e fetichização e a erotização do ódio contra mulheres seriam estratégias de defesa contra a paixão do regresso à fusão inicial com a mãe e o feminino, assim o homem estaria mais propenso a perversões sexuais e violências, se comparado a mulher.

Em certo encontro de masculinidades, ouvi de um mentor de um grupo de dança circular que o feminicida matou o seu feminino antes da mulher vítima. O que colabora com o pensamento de Stoller, já que quando privado do universo feminino a masculinidade tóxica do "hetero top" incute na realidade uma forte pressão pelo ódio contra mulher e contra tudo que é feminino.

Certo dia, conversando com meu irmão a respeito de sites de relacionamento homossexuais, existem perfis de homens, ditos gays, que não admitem e não buscam se relacionar com outros homens femininos. Ora, enfim a hipocrisia. Buscando entender o cerne desta questão recorramos a indústria pornográfica.

Filmografias pornôs heterossexuais são filmadas pela erotização extrema da mulher, com falo em primeiro plano e a mulher sendo subjugada, submissa, em posição de idolatria ao órgão masculino. Ora, homens heterossexuais a todo instante são bombardeados pelo universo de músculos, bebida, cigarro, carros, dinheiro, enfim simbologia fálica, o que me leva a crer que as relações masculinas em seu ego romântico são relações de admiração homossexual. Um homem não ama outro homem, pois no mundo masculino não é permitido o afeto, mas é traduzido e mascarado pela palavra "admiração", logo um homem pode admirar e almejar outro homem pelos seus atributos masculinos, não que isso seja gay - afinal é super másculo, não é mesmo? Outras situação, também amplamente discutidas hoje, principalmente no mundo esportivo, está na transsexualidade. Uma pessoa biologicamente mulher que passa pela transição para a biologia masculina, está ok, não sofre reprova, não há empecilhos, mas isso não confere a ela (conforme o senso comum transfóbico) o direito de comportar-se como tal, visto que é uma ofensa a masculinidade, principalmente quando "tira" o espaço do homem heterossexual top branco. Caso recente ao de Thammy Miranda nas campanhas comerciais da Natura, o que fizeram as ações da empresa valorizarem exponencialmente. Curioso não acha? Bem, acredito que estas discussões estão longe de acabarem, os gêneros flutuantes, não binários, intergêneros um dia serão lembrança de discussões infundadas de uma sociedade arcaica em evolução. A maneira como o ser humano se expressa com o corpo deixará de ser tabu moral, e outros princípios morais como honestidade, espiritualidade, solidariedade, comunhão, humanidade, cidadania e outros tantos devem ser colocados como reais fatores que determinam se uma pessoa é boa ou má ou simplesmente humana.

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