Bauru e grande região

 
Tribuna do Leitor

Vida plena e educação ambiental

por José Misael Ferreira do Vale

13/09/2020 - 05h00

Tempos atrás, já faz alguns anos, sobrevoei a imensa floresta amazônica que sempre desejei conhecê-la desde os tempos de Escola Normal. De Porto Velho fui desembarcar em município perto de Lábrea, no meio da floresta, no Estado verde do Amazonas e ponto de chegada da projetada Transamazônica.

Minha ida ao Amazonas foi solicitada para que eu oferecesse um curso de alfabetização a professores municipais. Leitor de obras do Educador Paulo Freire achei, por bem, aplicá-lo nas aulas em numeroso auditório. Mostrei que os professores da região tinham à frente dois "temas geradores" fundamentais: a floresta e o rio Madeira de onde poderiam explorar as "palavras com sentido" da prática social para início da alfabetização consciente. Fiz com os docentes dois painéis com palavras decorrentes da experiência pessoal sobre a floresta e o rio que guardo comigo como preciosidade pedagógica. Usei argila para fazer com os alunos objetos da vida social que permitiriam a exploração inteligente das palavras e sílabas, como por exemplo, no caso do objeto panela. Mas, devo confessar que muitos professores foram arredios às sugestões e diziam que preferiam o uso de cartilhas, algo que Paulo Freire jamais advogou. De tudo isso algo muito bom aconteceu. Escrevi um texto sobre a Pedagogia de Paulo Freire e o remeti ao Educador para avaliá-lo. Recebi a aprovação do Professor Paulo por meio de longo telefonema recebido em minha casa e publiquei o texto na editora da UNESP (Pensando a Educação: ensaios sobre a formação do professor e a política educacional. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1989, p.41-6). A partir deste fato aqui relatado desenvolvi amizade duradoura e profícua com o reconhecido Educador. Após este parêntese retomo o relato de minha ida ao grande Amazonas.

Viajei no avião "Bandeirante", bastante usado, com pintura desgastada, que evidenciava uso diuturno no transporte de pessoas e mercadorias. Na Amazônia o uso de avião e barco é uma constante que marca a vida do amazonense e do eventual turista. O avião que utilizei, além das pessoas levava mercadorias em sacos carregados nos braços dos viajantes a criar ambiente inusitado para um viajante que fora de São Paulo a Rondônia em avião a jato com todo conforto. Acomodei-me de propósito na janela à frente da asa do avião para poder contemplar a floresta na sua grandiosidade ímpar.

Fiz uso, na verdade, de técnica que sempre usara nos estudos particulares de Geografia Física, pois sem ser geógrafo de formação, mas observador atento da realidade física do entorno, intuitivamente levava a sério "a impressão geográfica" (sugerida por mim em artigo científico) diante da natureza exuberante do país, ao procurar melhor observar o contexto. A ciência geográfica começa pelo encanto sobre o mundo físico.

Por bom tempo vi, abaixo de mim, a imensidão verde alagada. Na ocasião "pensei com meus botões:"__"Vai levar tempo para devastar tanta mata virgem." Hoje, diante do avanço incrível da tecnologia, a situação é outra. Vendo vídeos atuais da região amazônica mudei de percepção, pois tomei consciência que a floresta se transformou em "objeto do desejo" de muitos que não pensam no futuro sustentável da região. Pessoas aventureiras objetivam resultados imediatos sem qualquer preocupação com "os resultados não intencionais de suas práticas de momento". São pessoas imediatistas sem qualquer preocupação com o ambiente local ou mundial.

Fazendeiros criadores de gado, madeireiros, garimpeiros, grileiros de terras da União, incendiários e outros seguem, quase inconscientemente, a séria advertência de influente político amazonense Gilberto Mestrinho, quando alhures acusava os paulistas e sulistas de terem desmatado os respectivos estados e, que nas décadas de 70 e 80 do século XX, colocavam óbices ao desenvolvimento do norte do país.

Acontece, porém, que os estudos científicos evidenciam que a derrubada da mata pode alterar os biomas e o clima das regiões mediante a alteração da temperatura do planeta. Muitos cientistas chegam a dizer que no futuro a Amazônia será extensa savana num clima seco caso a destruição avance inexoravelmente através dos próximos 50 anos.

Países da Europa preocupados com a "devastação da Amazônia" temem os reflexos da destruição de extensa região tropical essencial ao equilíbrio climático global afetado, desde 1860, pelo desenvolvimento industrial acelerado que gera CO2 responsável pelo chamado "aquecimento global do Planeta".

A discussão sobre o assunto coloca em lados opostos os países de "capitalismo avançado" com crescimento extraordinário e aqueles em vias de desenvolvimento razoável que acusam as nações ricas de frearem o possível desenvolvimento dos países pobres. A saída parece ser o favorecimento da emergência da economia moderna sem liquidar com o "ativo ambiental" baseado em manter a floresta em pé ou envidar esforços no reflorestamento contínuo de áreas desmatadas. Em outros termos mais acadêmicos deve-se articular dialeticamente o desenvolvimento econômico para todos à melhoria contínua das condições de vida das populações necessitadas com respeito efetivo às dádivas da natureza que, no caso do Brasil, foi generosa em termos de verde e de água, duas riquezas vitais aos humanos, tratadas desde os tempos coloniais, com descaso.

Parece-me que não se deve ficar hipnotizado pelo avanço científico e tecnológico, nem acabrunhado pelo imobilismo que veda tocar na natureza desconhecendo o fato de que desde os tempos primitivos o ser humano necessitou dos "recursos naturais" para simplesmente sobreviver. Todavia, como diz o provérbio popular, tome-se o cuidado para não "matar a galinha dos ovos de ouro" ao não levar em conta os limites de sustentabilidade da natureza finita. É preciso racionalidade no uso dos meios naturais e aprender a dar tempo para que a natureza se recupere diante de graves ataques dos incautos. Vida plena para todos em paz com a natureza.

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