Bauru e grande região

 
Tribuna do Leitor

O sol voltou a brilhar

por Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril, professor universitário aposentado.

22/11/2020 - 05h00

Apesar da claridade intensa da luz e do realce da alvidez que a natureza peculiarizou sua silhueta, a consciência de Miguel lhe advertia a prematuridade do momento de tentar aproximar-se de sua diva. Homem vivido, Miguel ficou solteirão contra sua própria vontade. Na fase da vida em que poderia escolher a mulher de seu agrado, demostrou uma pretensão elevada, construída em sonhos acima da realidade vivida. Agora, sessentão, as minúsculas relações sociais com Alba foram marcadas pela simplicidade de apagados sorrisos. O tempo foi passando e nenhum progresso Miguel registrou na sutil relação com Alba. Nada imaginável encenou além de cumprimentos protocolares de mão estendida, ou se estivessem distantes, apenas um gesto ou aceno com a cabeça selavam a saudação. Qualquer sinal diferente sussurrava nos ouvidos de Miguel que ali estava sua grande chance de melhor conhecer a mulher que fez sua pressão arterial despencar, deixando-o desorientado na rua, desbotado e com aparência que fora acometido de vertigem, tudo isso diante de uma imprevisível decepção que roubou a alegria convivida com Alba nas suas fantasias.

Embora naquela altura da vida, solitário e sexagenário, Miguel se contentasse com pouca coisa, seu coração despertado pelos novos tempos tornou-se esperançoso e mais exigente. Queria mais. No entanto, a coragem de um homem habituado na simplicidade, do tipo que foi esquecido pelo tempo, era tímida e negava forças nas palavras pouco audíveis e mal formadas. Essas migalhas de raros contatos sociais com Alba sem nenhum resultado prático, seriam a prova de superação que Miguel teria de passar, colocando na sua cabeça a ilusória formação um elo com a deusa, propenso a fortalecer e consolidar-se em esconderijos misteriosos, em lugares reservados, escondidos de olhos bisbilhoteiros. Essas fantasias torturavam o pensamento de Miguel, porém, mal sabia, que não eram as mesmas cultivadas no imaginário de Alba. Entretando, Miguel cada vez mais envolvido nos noturnos devaneios, jamais sonhou em empanar suas ilusões mesmo cismado que as circunstâncias conspiravam contra ele. Essa situação o colocou em estado de urgência/emergência, pensando que não tinha mais tempo a perder porque além de idoso era pobre e, com a papelada incompleta não conseguia aposentar-se pelo Inss.

Fazia-se iminente uma conversa séria e definitiva com Alba para expor seu projeto de uma vida em comum. Pensou nos prós e contras de uma união naquela idade, tomando a dianteira nesse embate, a voz influente do coração distanciando-se em muitos pontos de diferença do que lhe dizia a razão. Havia motivos para essa decisão, pois, nos dois anos de pouca proximidade com Alba encantou-se com o desenho curvilíneo de seu corpo magro e a singeleza nas relações com pessoas quando no seu trabalho, admirando a suavidade dos gestos quase imperceptíveis aos olhos de outros. Se as virtudes de sua diva mantivessem preservadas contra o rigor do tempo, dariam perfeito encaixe na mais requintada exigência. Porém, Miguel era modesto e os poucos cabelos ralos e vincos no rosto denunciavam a idade, motivos que o faria contentar com menos, se não conhecesse Alba.

Numa manhã em que o sol parecia brilhar somente para Miguel, caminhava solitário na calçada quase deserta de transeuntes, vendo de súbito a musa que alongava os sonhos, andar na sua direção. Pensou rápido que ali estava sua grande chance, senão a derradeira, de conversar a sós com Alba. Na oportunidade raríssima Miguel daria um tom suave às suas palavras, caprichando nas propostas recheadas de tópicos interessantes que fizessem Alba acreditar na sinceridade delas. Naquele exato momento em que o destino traçou um encontro para finalmente esclarecer a intenção de Miguel, Alba fingiu não vê-lo, atravessou a rua e na outra calçada apressou os passos no mais óbvio gesto de livrar-se do incômodo. Naquele instante as palavras cativantes que acabara de ensaiar se resumiram em apenas duas, repetidas com amargura: Alba, Alba.

O sol parou de brilhar pelo menos para Miguel que cerrou os olhos de atordoado que ficou. Encostou-se numa parede e esforçou-se para não perder os sentidos. Quando o sol voltou a brilhar para ele, os batimentos cardíacos recuperaram o ritmo da vida, banindo a permanência da tontura. Já com a cabeça em normal funcionamento, percebeu que o apagar do sol exclusivamente para ele, aconteceu para que uma luz iluminasse a escuridão revelando a manifestação hostil de Alba, antes impensável, destruindo para sempre uma paixão que parecida ser infinita.

Um fato semelhante aconteceu muito antes e com outra conotação, lembrou-se Miguel dos tempos da juventude nos salões de bailes românticos que frequentava e as temíveis "tábuas" significativas de recusa ao convite para dançar. Os cavalheiros de paletó e gravata ficavam de um lado do salão sentados à mesa, enquanto as damas também da mesma forma e com requintes na indumentária, do lado oposto, todos aguardando o maestro ordenar aos músicos o início da festa. Movimentada a batuta começava a largada dos inquietos cavalheiros atravessarem o salão com elegância na vestimenta e palavras afiadas pronunciadas com o refrescante hálito de hortelã da bala Piper, para convidarem as damas a dançar de rosto colado. No caso da dama não se agradar com o rapaz que fez o convite, a prática da época recomendava dizer com cara de pau um simples não. Pronto, a tábua estava consumada. Houvesse na dama um verniz de educação, a recusa era secundada por uma desculpa do tipo estou comprometida. Se a educação passasse longe da dama, ela daria a "tábua" virando as costas para o desprezado rapaz. Vexame total! Miguel que nasceu para não fazer o tipo de homem cobiçado pelas garotas, por conta disso, carregava algumas experiências nessas reprovações. Mas não se abatia com os revezes, sobretudo, quando vislumbrava do outro lado do salão uma eventual conquista. Sobre isso lembrou-se de um baile em que depois de flertar discretamente com uma dama, à ordem do maestro aos músicos, entoou-se uma melodia na medida para inventar um assunto murmurado ao pé do ouvido. Atravessou o salão com ar vitorioso e disse educadamente à jovem dama; a senhorita me dá a honra de dançar comigo? Não, foi a resposta.

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