Bauru e grande região

Tribuna do Leitor

A vida do deficiente no Brasil

por Clarisse da Costa, cronista, poetisa e artesã

10/01/2021 - 05h00

Vivemos num mundo muito visual. Para muitas pessoas, a aparência está em primeiro lugar. E isso inclui o corpo perfeito. A estética é do padronismo, não importando o caráter e os sentimentos da pessoa. Quero deixar claro que eu escrevo essa matéria com base a minha realidade e a realidade de muitas pessoas.

Eu sou deficiente físico, assim como costumam me falar. Eu superei muitas coisas. Consigo comprar coisas para mim. Eu uso um andador para caminhar na rua, e talvez por isso a rejeição de muitas pessoas. Eu fui rejeitada em 2018 por um homem que dizia me amar por conta disso.

Eu sou escritora, faço cursos, tenho conhecimento, e mesmo assim a minha capacidade é sempre testada. Mas eu nunca tive vergonha de mim, sempre me aceitei. Porém, o meu maior desafio é namorar. Eu sou linda demais, como dizem as pessoas, mas não aceitável por conta das minhas limitações físicas.

Nas fotografias, eu sou a mulher perfeita. Como eu disse no início, vivemos num mundo muito visual. O preconceito é tão grande na humanidade que já existem aplicativos para pessoas com deficiência arrumarem namorado. Tudo isso porque os ditos normais não aceitam não assumem. Querem perfeição, não amor. Muitos que topam se relacionar é por curiosidade. Nada algo sério, apenas uma noite. Normalmente, é sempre as escondidas, nada algo em público para as pessoas não verem.

Meu pai sempre me conta que na sua adolescência as pessoas eram presas dentro de casa pelas suas famílias, pois tinham vergonha de seus filhos. Infelizmente, a deficiência ainda é relacionada à incapacidade. Eu percebo como as pessoas me tratam, principalmente os homens. A maioria busca uma mulher que não existe, eles gostam da beleza externa. O corpo da mulher é sempre símbolo de prazer.

Como podemos perceber, a deficiência não é encarada com normalidade. No passado, as pessoas com deficiências, seja física e mental, eram tratadas como indivíduos possuidores de demônios e por consequência eram queimados como bruxas. Mas com o passar dos anos isso foi mudando um pouco com o surgimento de hospitais de caridade e asilos. Ali eles eram abrigados e cuidados. No período do final da década de 1970, deu-se início ao movimento das pessoas com deficiência. Até meados de 1979 as pessoas eram consideradas invisíveis. Elas eram dignas de caridade e não de cidadania.

Segundo o IBGE, dados de 2020, no Brasil temos mais 12,5 milhões de brasileiros com deficiência. Isso corresponde 6,7% da população no País. Mas não tem como falar de deficiência sem falar de inclusão. A inclusão social traz oportunidades. No entanto, enquanto a pessoa com deficiência não for tratada com naturalidade, como indivíduo capacitado, a inclusão não será posto em prática no País todos.

É muito chato ter que depender da piedade das pessoas! Muitas vezes, a ajuda oferecida não vem de bom coração. E ainda nos perguntam: você consegue? Nem sequer nos dão a oportunidade de tentar.

 

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