Bauru e grande região

Tribuna do Leitor

Carnaval e coronavírus

por Leonardo Torres, psicoterapeura

10/01/2021 - 05h00

O ano de 2021 ainda será marcado pela Covid-19, principalmente, no Brasil. Já em janeiro, os números de casos de coronavírus voltaram a crescer enormemente. A principal hipótese do aumento de casos é a banalização do vírus, o que leva a aglomerações, encontros etc. Se isso for correto, o maior desafio ainda está por vir: o Carnaval.

É evidente que a vacinação não será rápida devido ao número da população brasileira; e a proibição do governo pode não impedir que os foliões saiam às ruas. Isso significa que os números de casos e mortes podem aumentar.

A proibição e/ou o adiamento do Carnaval 2021 podem não ser respeitados, pois se lançarmos o olhar na História, dois adiamentos já foram estipulados: em 1892 e 1912. E a população, por não acatar os pedidos dos governantes, acabou por realizar duas vezes o Carnaval nesses anos. Apesar dessas datas não estarem relacionadas a nenhuma pandemia, na Europa Medieval o Carnaval que se seguiu após a epidemia da peste bubônica foi um dos maiores já relatados. Isso aconteceu pois, culturalmente, o Carnaval é festividade de expiação. Livramos todas as tensões sociais nele. Já em meio à peste e contagiados pelo medo coletivo, existem diversos relatos de grandes e ininterruptas aglomerações e festas, como as danças de São Vito - ou danças da morte.

O caso mais famoso é o de Estrasburgo, na França. De acordo com estudos já realizados e relatos da época, quem começava a dançar não conseguia parar. Alguns autores denominam esses casos de histeria coletiva; eu prefiro denominá-lo de Contágio Psíquico. O fato é que ali houve uma expiação coletiva do medo da morte que a população da época enfrentava. Podemos entender esta expiação do medo da morte como fenômeno coletivo contrafóbico da psique, ou seja, quando o indivíduo vai ao encontro de seu medo para que possa se livrar dele - um livramento literal. Nesse caso, muitos indivíduos encontram a morte literal. Por isso, é necessário simbolizar.

Apesar de parecer uma época longínqua, não podemos negligenciar a natureza psíquica humana. Vimos no ano de 2020 muitos indivíduos seguindo esse padrão contrafóbico e não praticando nenhuma medida de higiene e segurança contra a Covid. Presenciamos também os furtos de papel higiênico e aumento considerável do consumo de benzodiazepínicos pela população, indicando que o medo está presente, apesar do vírus banalizado.

O fato é que todos estamos psicologicamente exaustos da tensão gerada pela Covid. Resta aguardar e tentar seguir com consciência, evitando qualquer tipo de aglomerações, especialmente a do Carnaval, para que este não seja marcado também pela Covid-19 como o maior e pior Carnaval do Brasil.

 

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