Bauru e grande região

Tribuna do Leitor

Toque as feridas

por Jorge Carlos Rodrigues de Freitas

11/04/2021 - 05h00

Os cinquenta dias posteriores ao Domingo de Páscoa, para os cristãos, são chamados de "tempo pascal", na prática é como se dissesse que a Páscoa não acaba. Neste tempo, refletimos as passagens do Evangelho que ocorrem após a Cruz, quando Jesus, agora ressuscitado, tem encontros com muitos discípulos e continua caminhando sobre a terra.

Um destes encontros é com o apóstolo Tomé. Muitos se referem a ele como "o apóstolo que não tinha fé", pois quando alguns outros discípulos vieram lhe contar "vimos o Senhor", ele não acreditou cegamente. Disse que se ele mesmo não encontrasse Jesus e não tocasse suas mãos machucadas pelos pregos da cruz, ele não acreditaria.

Seria o seu questionamento uma falta de fé? Na fé existe espaço para dúvidas? O que aprendo com esse encontro é que as dúvidas que Tomé levanta, são as questões que devem existir em qualquer cabeça que busca a verdade. Tomé era um apóstolo disposto a encontrar, tocar e experimentar a verdade.

Graças às suas dúvidas, quando Jesus vai ao seu encontro e diz "estou aqui, toque as feridas" Tomé dá um salto na sua fé, e passa da compreensão que os apóstolos já tinham a respeito de Jesus: O Messias, enviado de Deus, o Cristo (abençoado, ungido por Deus) ou Filho de Deus vivo, para uma compreensão totalmente nova e revolucionária. Surge a profissão de fé central do cristianismo: "Meu Senhor e Meu Deus".

Uma fé que não permite o fiel questionar em busca da verdade corre o risco de cegar. E uma crença cega é fanatismo, é idolatria.

Dito isto, toquemos as feridas da nossa cidade. Há alguns dias um grupo de vereadores propôs uma Moção de Apelo à prefeita pelo uso do chamado "tratamento precoce contra a Covid-19" (depois retirada). Nobres vereadores, visto que alguns de vocês se confessam cristãos, apelo às vossas mentes: não creiam em tudo que lhe disserem. A crença cega de alguns nesse "kit" beira o fanatismo religioso.

Acabo de ler que a Anvisa já tem notificações de uma dezena de mortes decorrentes do uso inapropriado do medicamento Cloroquina. Que o registro de reações adversas a este medicamento teve aumento de mais de quinhentos por cento desde o início da pandemia. A cidade de Chapecó-SC, tida como exemplo do uso do tratamento precoce, teve divulgação de números manipulados. E as internações caíram realmente após medidas restritivas e isolamento social.

Ciência não se faz por decreto. Apelo pela humildade de vossas excelências: quando não é a vossa especialidade, ouçam os especialistas, os cientistas. Não é a minha, também. Mas não existe indicação comprovada por nenhum órgão de medicina para o uso do tal "kit", e os indivíduos que o fazem, estão cegos pelo fanatismo político.

Toquem as feridas do corpo de Cristo que sofre nas UTIS. Usem as energias de vocês e a influência política para o que realmente precisamos. A nossa região já sofre com falta de sedativos e outros itens necessários para intubação e para tratar pacientes internados. Foquem na busca da verdade e no que pode, de fato, curar.

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