Bauru e grande região

Tribuna do Leitor

Arte e cultura de um homem público

por MARIA CRISTINA EHMKE CARVALHO - Membro efetivo da Academia Bauruense de Letras e colaboradora do Projeto Memória ABletras

02/05/2021 - 05h00

Sua face brilhava de alegria e meiguice. Todo seu corpo, mente e espírito, visivelmente, denotavam um sentimento de gratidão e boa vontade. O homem sentado de costas para as grandes janelas era Nilson Ferreira da Costa. Ele evidenciava um sorriso feliz, daqueles que lograram encontrar sua orquídea azul.

No verão de 2019, nossa equipe do Projeto "Memórias da ABletras foi visitá-lo em seu apartamento, no edifício Francisco de Assis Moura, conhecido por "Chicão". Seu lar fora cuidadosamente planejado para que ele se sentisse completo e acolhido e que lhe proporcionasse paz e tranquilidade. Observou-se que cada pedacinho de espaço, cada detalhe da decoração ali colocada com inteligência, beleza e praticidade, contam muito sobre sua história e remetem às suas memórias e princípios, de maneira fidedigna. As grandes janelas trazem para dentro a luminosidade natural do dia, um sinal de que o anfitrião estima receber os amigos para o prazer do colóquio.

Acomodamo-nos em um confortável sofá da grande sala, e ele preocupou-se em nos explicar que, no alto de seus noventa anos, sofria de grandes lapsos da memória, que já não era a mesma. Mas, com a conversa simples e prazerosa se estendendo, sua atenção focada ia levando-o a uma memorização mais profunda, e, pouco a pouco, sua fala baixa fluía, lentamente, sobre os eventos do passado.

Já sabíamos que somente aquela visita não caberia na grande trajetória de vida pública e pessoal que ele tinha para nos contar. Por isso, voltamos outras vezes. Sua história nos levou a décadas passadas, quando o jovem Nilson, em complemento aos estudos iniciais, ingressara na Escola Progresso tendo Dona Celina Neves como professora, que mais tarde se tornara amiga da família. Além disso, era admiradora dos ideais e princípios de seu aluno, portanto, foi grande incentivadora para que ele seguisse a carreira política e fizesse crescer o Município de Bauru. Também foi ela quem o convidou para fazer parte da Academia Bauruense de Letras.

Nilson Costa é considerado um político brasileiro. Foi vereador, deputado Estadual e Prefeito de Bauru, mas antes disso, um cidadão que desejou uma Bauru melhor para todos. Sente-se tranquilo por ter feito política com autoridade consciente e negociações honestas, construindo o bem estar coletivo e justiça social. E suportou com serenidade as mazelas inerentes à política.

Quando perguntamos se ele tinha algum documento sobre seu trabalho que quisesse nos mostrar, acenou em afirmativa e imediatamente solicitou que Heloísa fosse pegar na biblioteca. Heloísa é uma dos seus quatro filhos. Uma mulher encantadora, muito simpática, de voz suave e amável, que já nos havia paparicado com um café delicioso. Heloísa voltou com uma encadernação impecavelmente organizada. Era a relíquia da qual mais ele se orgulhava: as edições do semanário "A verdade", o valente periódico, sem publicidade, sob o slogan "Última trincheira", lançado por ele no ano de 1957.

Nilson Costa nos disse que foi uma delícia ter trabalhado na Noroeste com toda a sociedade tradicional de Bauru. Sobre o Correio da Noroeste, onde trabalhou como repórter, recordou, emocionado, de que, quando havia uma notícia extra, o jornal tinha uma sirene que tocava e a notícia era colocada no letreiro da Avenida Rodrigues Alves, e , então, o povo de Bauru ia lá para ler a notícia de antemão.

Em sua coluna "Alta Tensão" , no Jornal da Cidade, que dirigiu por 27 anos, teve a colaboração de incontáveis amigos, dentre eles o trovador Helvécio de Barros, que também é seu patrono na Academia Bauruense de Letras. Nilson Costa compartilhou sua vida com a família, os amigos de luta política e os amigos da literatura, sendo estes últimos, sempre enaltecidos por ele como vultos da história bauruense, destacando os poetas Rodrigues de Abreu, Nidoval Reis, Helvécio de Barros, entre outros, enquanto prefeito e Presidente da Academia Bauruense de Letras.

Sobre sua gestão na presidência da Academia Bauruense de Letras, ele nos conta que já no início solicitou a organização de todas as edições do jornal "O desafio", da entidade, para uma futura encadernação. Promoveu o Primeiro Encontro Inter-Regional de Academias Municipais de Letras e Entidades Afins, realizado no auditório do SESI-Horto de Bauru. E ainda, vislumbrando-se a possibilidade de a ABL ter sua sede em uma das salas da antiga Estação Ferroviária, formou uma comissão de acadêmicos com o objetivo dessa conquista.

Nilson Costa conta que escreveu com uma inspiração que nunca lhe falhou nos bons ou maus momentos da vida. Foram milhares de artigos escritos em sua inseparável Olivetti Linea 96. Disse que as trovas de Nidoval Reis inspiravam-no, dando-lhe o caminho das pedras para os textos críticos. Com tiradas de humor e sátira, seus textos transmitiam mais intensamente as mensagens que queria passar. Nosso entrevistado é um homem socialmente polido; no que tange a assuntos pessoais demonstra-se mais reservado . Um homem que viveu o bastante para deixar de lado ilusões e coisas inúteis , que tem a coragem de permanecer com as coisas essenciais; que tem a certeza e a confiança de que ter dado o melhor de si, foi suficiente.

O jurista Damásio Evangelista de Jesus escreveu em 1994 na coluna "Alta Tensão" sobre o sonho da Orquídea Azul, cujo propósito era viajar para Amazônia em busca de encontrar um exemplar dessa espécie raríssima.

A mensagem de Damásio era que se não a encontrasse, o que valia era o ideal perseguido e o desejo de motivar outros a fazerem o mesmo. Mas, a orquídea azul não fora encontrada. Por muito tempo, Nilson Costa dedicou orações para que seu amigo Damásio encontrasse a flor almejada.

Através do olhar sorridente de Nilson, desse olhar inteiro de quem sabe que não há nada de novo para ser achado sob o sol, não é difícil concluir que ele, sim, tenha encontrado a sua orquídea azul.

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