Bauru

Tribuna do Leitor

Como lidar com a ansiedade infantil durante a pandemia da Covid-19?

por Rita Melissa Lepre - Psicóloga, Mestre e Doutora em Educação. Docente do Departamento de Educação da Faculdade de Ciências, Unesp/Bauru.

18/07/2021 - 05h00

A ansiedade é um estado emocional presente na vida de todo ser humano, composta por componentes psicológicos e físicos. Quem nunca sentiu o coração "acelerado" e a respiração ofegante frente a alguma situação que causou alguma insegurança ou tensão? Nesse sentido, a ansiedade se converte em um alerta de que há algo que merece nossa atenção e uma possível ação. Existem diferentes níveis de ansiedade, desde aqueles leves e cotidianos, que nos permitem que nos preparemos para ações e condutas apropriadas a algumas situações, até aqueles mais severos, que podem levar o sujeito a um transtorno de ansiedade, com sintomas que podem se tornar incapacitantes. Quando a ansiedade é extremada falamos em transtorno de ansiedade que pode ser generalizada, fóbica, social, de separação, entre outros. Apresentar determinado nível de ansiedade é comum e está ligado a reações instintivas da própria espécie que aciona os mecanismos de atenção, luta ou fuga frente a acontecimentos novos e desconhecidos.

As situações que desencadeiam a ansiedade nas pessoas são as mais variadas possíveis e há diversos fatores ansiogênicos que são percebidos e vividos de formas diferentes por cada um. Crianças, adolescentes, adultos e idosos apresentam ansiedade em algum momento da vida. Durante a pandemia da Covid-19 as queixas relacionadas à ansiedade aumentaram bastante. A incerteza sobre o futuro, o medo do vírus, o isolamento social e a instabilidade financeira, entre outras questões, geraram angústias e desencadearam crises de ansiedade em muitas pessoas. As crianças também foram afetadas pela pandemia apresentando episódios mais constantes de ansiedade e até sinais de depressão.

O afastamento da escola, dos colegas e das rotinas diárias, aliado às inseguranças e medos causados pela crise sanitária, levaram à expressão de sinais e sintomas como a queda no rendimento escolar, regressões no desenvolvimento e na aprendizagem, alterações no apetite e no sono, mudanças repentinas de humor, dificuldades de relacionamento interpessoal, sintomas físicos como dor de cabeça, tonturas, enjoos, respiração ofegante, gerando sofrimento psíquico e angústias.

Nem sempre as crianças falam sobre o que estão sentindo, mas podem expressar suas emoções de diferentes formas que oferecem pistas aos adultos de que pode haver sofrimento psíquico e necessidade de atenção e intervenção dos responsáveis e até o encaminhamento à profissionais da saúde (psicólogo, neuropsicólogo, médico pediatra, neuropediatra, entre outros) para avaliação adequada.

O que fazer quando essas pistas, sinais ou sintomas forem percebidos? Seguem algumas dicas que, obviamente, não substituem a necessidade de, em alguns casos, procurar ajuda profissional individualizada.

1) Observar quais as situações que geram maior ansiedade na criança e buscar meios de minimizar tais situações;

2) Prontificar-se a ouvir a criança, deixar que ela fale sobre seus medos e inseguranças, não subestimando suas preocupações e angústias, mas colocando-se à disposição para auxiliá-las;

3) Tentar encontrar um tempo para estar com a criança, fazendo coisas que ela goste, mesmo que dentro de casa, como desenhar, ouvir música, dançar, jogar, brincar.

4) Conversar com a criança, mostrando interesse pelo o que ela diz e sente. Muitas vezes o adulto fala com a criança, mas não dialoga com ela. Coloque-se, também, no lugar de quem ouve, para depois falar. O diálogo é uma ação humana importante e necessária nas relações com o outro;

5) Atividades físicas auxiliam no controle da ansiedade. Assim, tomando todos os cuidados necessários, caminhe com a criança em lugares calmos e próximos à natureza;

6) Atividades como leitura, meditação, yoga, pintura, desenho, auxiliam no controle da ansiedade. Procure possibilitar tais atividades à criança;

7) Controlar o tempo de exposição à tela. Com a pandemia o tempo que as crianças permanecem na frente da televisão, celular e computadores aumentou muito. O contato excessivo com as telas e com alguns conteúdos virtuais podem gerar e piorar a ansiedade infantil;

8) Buscar manter uma rotina que envolva tempo para os estudos, para as brincadeiras, para o descanso, para as atividades físicas etc;

9) Oferecer informações claras e diretas sobre a pandemia, o vírus, as formas de transmissão, os cuidados necessários e desmistificar notícias falsas e destorcidas que podem gerar pânico nos pequenos;

10) Colocar-se, enquanto adulto, como referência de segurança para a criança, disponibilizando sua atenção, carinho, afeto e escuta.

Os adultos também estão cansados, temerosos, com dúvidas e muita ansiedade durante o momento pandêmico que vivemos. No entanto, adultos possuem mais recursos psíquicos para lidar com a situação, o que não significa que também não adoeçam e mereçam atenção e acolhimento. Em caso de manifestações exacerbadas de ansiedade, com sintomas recorrentes e paralisantes, é imprescindível que se busque ajuda profissional.

 

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