Bauru

Tribuna do Leitor

A moda é o idioma inglês

por Alfredo Enéias Gonçalves d’Abril

10/10/2021 - 05h00

Bento, o mesmo personagem que passou por este jornal no conto intitulado Caixa 2, publicado em 17/01/21, mantém a natural simplicidade no seu comportamento pessoal e a mesma dedicação à sua enferma e idosa mãe. Depois de aposentado por tempo de serviço e continuando solteiro, sem alguma perspectiva de encontrar a mulher construída nos sonhos noturnos e nos cochilos pós almoço, minou no seu pensamento a vontade de mudar-se com a progenitora para casa própria. Para não retirar o dinheiro da poupança, muito embora tenha ela rendimento pífio, Bento pensou em comprar um apartamento "na planta", como é conhecido entre as imobiliárias e corretores, financiando o valor que não possuía além da poupança bancária. Começou a divulgar o seu plano nas conversas com amigos, os quais, colocaram asas ao assunto logo chegando aos ouvidos de um corretor de imóveis, conhecido pela seriedade de suas vendas.

O corretor foi na casa de Bento para expor o que tinha para vender mostrando-lhe uma planta de edifício de apartamentos a ser construído em região nobre da cidade a preço final que cabia no seu bolso. Era exatamente o que Bento imaginava. Manifestou seu interesse não por palavras mas por meio da avidez com que olhava no papel a unidade desenhada. O corretor apontou na planta com o dedo indicador os cômodos do apartamento, área de lazer e salão de festas, valorizando cada metro quadrado da unidade. Acrescentou, com ênfase na explicação, que o prédio dispunha do que existe de mais moderno em serviços, como exemplo, Espaço Wellness, Espaço Delivery, Espaço Kids, SPA, City Market, Beach Tenis, Poll Houses, Pet Place, Fitness, Car Whas e mais duas ou três coisas que sabia de que se tratava, porém, como a construtora do prédio fez a propaganda desses serviços em inglês, postergou para breve revelar para Bento o significado de cada uma dessas utilidades em português. Na verdade, o corretor só havia decorado os nomes que lhes passaram na reunião da imobiliária, para impressionar o interessado e alavancar as vendas.

Bento teve dificuldades para concluir o ensino médio porque na ocasião as circunstâncias da vida lhe eram ingratas, e por tal motivo não sabia patavina de inglês, o que levou a pedir explicações ao corretor sobre as partes do prédio mencionadas na língua estrangeira, dizendo com algum constrangimento que não falava, tampouco entendia, aquele idioma, conquanto tenha iniciado um curso numa escola dominada por alunos jovens, mas desistiu de continuar assistindo aulas porque os alunos só se interessavam nas traduções de músicas pop, aquelas que retumbavam na mídia estourando nas paradas de sucesso. Os miúdos do idioma que aprendeu no curso foi observado como crítica por um amigo ao lhe dizer que seu inglês era igual o da ex-presidente da República Dilma Rousseff.

Naquele dia, o corretor se informaria do significado das expressões da língua inglesa e no dia seguinte, tudo seria transformado em compreensível português para saciar a natural curiosidade de Bento. Na hora do almoço o corretor ao encontrar Bento, leu num papel que trazia no bolso, as palavras escritas na língua inglesa e traduzidas no nosso idioma, retirando o entrave de uma venda promissora. Exultante ao perceber a reação positiva de Bento, alongou um pouquinho a conversa, dizendo-lhe ter se lembrado de uma das coisas que faltava acrescentar na relação de serviços inerentes ao prédio, e que era exatamente o Habood, também conhecido por Dust Bowl. Vendo de frente a cara decepcionada de Bento, na hora corrigiu sua gafe aduzindo: me desculpe sr. Bento, sei que não entende inglês, mas não há problema porque essas palavrinhas significam tempestade de areia, fenômeno que não afetará o prédio pela absoluta vedação das janelas e portas das sacadas dos apartamentos.

 O autor é  professor universitário aposentado.

 

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