Bauru

Tribuna do Leitor

A privataria não para...

por Mauro Cesar P. Landolffi

19/06/2022 - 05h00

A privatização da Eletrobrás a um preço "simbólico" foi muito mais que uma entrega do patrimônio nacional, construído com trabalho, impostos e sacrifício dos brasileiros e barganhado pelos lobistas do Congresso.

Nenhum país do mundo que tem como base de energia o sistema hidráulico de usinas as entrega à iniciativa privada. Na China, dona da maior produção, o sistema é completamente estatal. Nos Estados Unidos, a meca do capitalismo, é o poder público quem as administra, e assim é também em países como Canadá, Suécia, Noruega e Dinamarca.

A manutenção da energia hidrelétrica nas mãos do governo, além de estar ligada à soberania, é parte da estratégia de desenvolvimento desses países. Uma política baseada no conceito de segurança energética: a garantia da disponibilidade ininterrupta de fontes de energia a um preço acessível para garantir o desenvolvimento econômico, industrial e social dos países. A participação privada lá é absolutamente minoritária, relegada às usinas de porte secundário e fortemente regulamentada pelas autoridades públicas.

Além disso, o controle sobre a produção de energia hidrelétrica está vinculado também ao controle sobre a vazão dos rios e dos reservatórios, onde se concentra parte substancial da água potável de que dispõe o país. Os novos "donos" da Eletrobras também serão donos das hidrelétricas em quase todas as bacias hidrográficas do nosso país. O controle dessas bacias poderá abrir espaço para a comercialização das águas: rios, aquíferos, águas subterrâneas, lagos e reservatórios se tornariam privados. Ou seja, teríamos um mercado para a utilização da água, o que poderia restringir o acesso e o uso, criar conflitos e aumentar o custo das tarifas de água.

Para essa política de privatização, podemos ter como exemplo o que foi feito com a Petrobrás. O resultado foi que o preço dos combustíveis passou a ser determinado apenas pelos bilionários lucros que hoje são distribuídos aos acionistas privados da empresa, que também foi construída com o trabalho, os impostos e o sacrifício do povo brasileiro. Não faz parte das prioridades de empresas privadas a preocupação com o bem-estar da população. Esse é o papel do governo e está vinculado às empresas que atendem a necessidades básicas, como o fornecimento de energia elétrica e dos combustíveis que fazem o país andar. Isso explica a disparada do preço dos combustíveis. E Isso infelizmente é o que se prevê para acontecer, ainda com mais força, com as contas de luz de uma Eletrobras privatizada.

Cerca de 99% da população brasileira e praticamente todos os setores produtivos fazem uso da energia elétrica. Com custos maiores, pequenas e médias indústrias podem fechar, agravando a desindustrialização e o desemprego em todo o país. Outra consequência será o aumento no preço de bens de consumo, alguns essenciais, uma vez que a alta no processo de produção normalmente é repassada ao consumidor final.

Em vez de subsidiar os insumos de produção, como a energia, para que sejam mais baratos, e aumentar a produção industrial, o governo privatiza a Eletrobras para viabilizar um aumento abusivo das contas de energia elétrica do nosso país.

Em síntese, as instituições mais importantes do país, que deveriam primar pela integridade e retidão, por lidarem com interesses tão essenciais, estão contaminadas. Têm atores que prestam serviços não para a coletividade, mas para os saqueadores de nossas riquezas. O desemprego, o crescimento medíocre e a inflação não são o problema. Há pessoas passando fome, sem casa, sem escola, sem saúde, mas o trabalho incessante é para atender aos interesses de uma minoria, pequenos grupos que agem como parasitas de uma terra tão rica como a nossa.

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