Bauru e grande região

Segundando

Por um mundo mais bonito

por Cinthya Nunes

13/11/2017 - 07h00

Há algum tempo uma ideia tem me ocupado minha mente e provocado em mim algumas reflexões. Tenho pensado muito sobre o conceito de beleza, sobre padrões do que se convencionou chamar de feio e de bonito. Quando olhamos para as pessoas como elas realmente são, sem filtros de fotos, sem recursos como maquiagem, cintas modeladoras, perucas, cílios postiços e outros, o que resta, com pouquíssimas exceções, é muito diferente do que nos é apresentado como modelo pela sociedade moderna.

Ainda que tenhamos variações sobre as preferências pessoais, no geral as pessoas adotaram um padrão de beleza imposto, quase invariável e muitas vezes inatingível para a esmagadora maioria das pessoas. Por essa ótica, as pessoas, no mais das vezes, são "feias" e por conta disso passam a vida sofrendo para moldar seus corpos freneticamente, num desperdício de tempo, de saúde e de emoções.

Pelo pouco que já ouvi sobre o assunto, em termos científicos, sei que há algumas evidências científicas de que certos padrões de beleza estariam intrínsecos, arraigados no cérebro humano que, por isso, reconheceria em algumas pessoas a beleza, os atrativos para uma reprodução bem sucedida. Não sei se acredito ou concordo com isso, mas também não tenho conhecimentos para refutar cientificamente tais argumentos.

Seja como for, temos uma tendência a rotular pessoas de acordo com classificações de bonitos e feitos, seja por critérios pessoais, culturais ou uma mistura dos dois. Até o ponto de que alguém goste mais de uma característica física do que de outra, não vejo problemas, pois a isso se chama diversidade, o que é saudável, desejável e evolutivamente necessário. O que me incomoda é exatamente o contrário: é o estabelecimento de padrões, não raras vezes cruéis, sobre o que é digno de ser chamado de belo e o que não é.

Nesses tempos de fast food, com uma variedade de alimentos processados como nunca dantes se viu, fica difícil alimentar-se de forma adequada quando mal se tem tempo para sentir o gosto da comida, quando se é obrigado a fazer reuniões enquanto se almoça ou a conferir emails e o celular durante o ato automático de se engolir um lanche.

Igualmente complicado é ter fôlego para prática de exercícios após um dia de 12 extenuantes horas de trabalho, ainda mais quando se tem entes queridos, como filhos ou animais de estimação esperando para receber a cota de atenção que lhe cabem. E tudo isso não apenas porque se almeja uma saúde melhor, mas porque é preciso perder aquela barriga que insiste em preencher cada espaço vazio nas roupas, sobretudo nas calças.

A seguirmos o que a sociedade moderna espera de nós, é necessário termos ânimo para toda e qualquer atividade, mas, para além disso, devemos ser bonitos e fiscamente definidos, sob pena de sermos taxados de preguiçosos ou relapsos. Temos nos transformado em uma sociedade que se preocupa em demasia com o visual, mas quase nada com o essencial. A felicidade, parece-me, está sendo relegada à esfera idílica da poesia, sem pressa de acontecer de verdade.

Acredito que de fato estejamos precisando de um mundo mais bonito, mas no verdadeiro contexto da beleza, daquela beleza que enche o coração e, se tiver espaço, alegra os olhos. É preciso ser belo no agir, no lidar com o outro, mas consigo mesmo. É preciso não apequenar nossa aparência, aquilo que trouxemos conosco para esse mundo, mas sim termos a consciência de que somos mais do que isso, de que transcendemos ao físico, pois somos essência, feitos de carne, mas sobretudo de alma.