Bauru e grande região

Segundando

Os Gatos

por João Jabbour

04/12/2017 - 07h00

Eles têm 7 vidas, são 7 músicos e caminham nos acordes da longevidade para 70 anos de união, amizade, no embalo romântico da Jovem Guarda e da energia do velho e bom rock'n'roll. Que os deuses da música e da vida nos ouçam! Os Gatos são Antônio Renan Ferro, Nadim Buttros, Luiz Carlos Napolitano, Carlos Eduardo Ado Francischone, Cristiano Fagian, Paulo Melchiades e Maurício Travessa.

Levaram ao delírio, literalmente, a plateia que lotou o Alameda na última quinta-feira, para fazer dezembro começar em altíssimo astral e ajudar a Associação Bauruense de Combate ao Câncer. E esses garotos cinquentões e sessentões ainda comemoraram 50 anos de uma trajetória com poucos paralelos na música. Que grupo, dupla ou conjunto musical está há meio século junto? Renato e Seus Blue Caps? Talvez.

E como se não bastasse a 'onda e a festa de arromba' que Os Gatos fizeram, Luciana Pires, com seu incrível talento tipo exportação, fez uma participação especial, um show à parte de voz, interpretação e o toque feminino para que o palco ficasse ainda mais lindo.

Durante duas horas, foi visível e admirável o prazer com que bauruenses de bem com a vida como Carlos Sette e esposa, João Tidei de Lima e esposa, Roberto Macedo e esposa, Luceli e Ari, Clemente e Tereza, Marilena Berriel, Leda Francischone, Fernando Pinho e esposa, Telma e Paulo Gobbi, Menegali, entre muitos outros, curtiram uma viagem a um tempo em que dizíamos, sem vergonha de sermos felizes: "Feche os olhos e sinta// um beijinho agora// de alguém que não vive sem você// que não pensa e não gosta de outra menina..."

Em determinado momento do espetáculo, o astral era tão inspirador que vi um casal enamorado, cada qual no auge de seus sessenta e poucos anos de vida, uns 40 e tantos juntos, trocar juras eternas: "Não se esqueça meu amor// que quem mais te amou fui eu// Sempre foi o teu calor// que minh'alma aqueceu// E no sonho para dois// viveremos a cantar// a cantar o amor....". Foi a troca de olhares e gestos mais enternecida da noite.

Vendo Os Gatos, éramos todos "garotos, que como eu// amava os Beatles e os Rolling Stones// Girava o mundo// sempre a cantar// as coisas lindas da América// Não era belo// mas mesmo assim// havia mil garotas a fim// Cantava Help, And Ticket To Ride, Oh Lady Jane, Yesterday. Cantava viva à liberdade// mas uma carta sem esperar// da sua guitarra o separou// fora chamado no América... Stop! Com Rolling Stones// Stop! Com Beatles songs// Mandado foi ao Vietnã// lutar com vietcongs...// Ratá-tá-tá-tá... Tatá-tá-tá-tá... Ratá-tá-tá-tá..."

"No nosso tempo, gato era o músico habilidoso. Mas quando associam com beleza, nós não ligamos. Agora cinquentões, nós somos 'Os Gatões'", disse Ado Francischone à repórter Ana Beatriz Garcia, do JC, bem-humorado e já na expectativa do novo pulo dos Gatos, poucos dias depois. E quando chegou a data, foi como na música de Roberto Carlos 'A volta': "Estou guardando o que há de bom em mim// para lhe dar quando você chegar// toda ternura e todo o meu amor..."

Nasci na década da Jovem Guarda. Naquele tempo, cresci ouvindo termos e denominações bem peculiares, como 'gato' para designar músico bom ou rapaz bonito. 'Broto' era a linda menina, 'pão' também queria dizer garoto belo. O rock'n'roll brasileiro foi chamado de 'iê-iê-iê'. E, ao contrário do que pregam alguns críticos, o termo Jovem Guarda não é tão alienante e ingênuo, pois teria sido tirado de um discurso de Lênin, que afirmou: "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

Algumas gírias da época da Jovem Guarda permanecem até hoje. Quer ver? Barra limpa (está tudo bem), cafona (feio, brega), carango (carro), chapa (amigo), coroa (pessoa velha), é fogo! (é difícil), gamar (namorar, apaixonar-se), grana (dinheiro), mancar (desrespeitar compromissos), morou (entendeu?), o tal (pessoa de destaque), pacas (muito), papo furado e tantos outros.

Tudo isso é uma brasa, mora!