Bauru e grande região

Segundando

Os filósofos pop star

por João Jabbour

15/01/2018 - 07h00

Leandro Karnal, Mário Sérgio Cortella, Clóvis de Barros Filho e Luiz Felipe Pondé. Este time de filósofos brasileiros é, hoje, o preferido daqueles que buscam entender o que se passa com a humanidade e encontrar algum sentido na própria existência.

Tornaram-se pop star de uma camada média da população que tem acesso a imprensa, livros e educação porque fazem mais sentido às pessoas do que a turma pop star anterior, a da autoajuda, que também fez sucesso, mas audiência não significa, necessariamente, qualidade.

A chegada dos novos filósofos é um incremento e tanto na cultura e educação popular porque a reflexão filosófica nos diz muito mais do que a autoajuda, embora esta possa ter servido a muita gente. A autoajuda se ressente, em geral, da falta de embasamento científico e no enfoque excessivo na conquista de bens materiais e na competitividade da vida moderna. É pouco. Muito pouco.

A professora da Universidade federal de Santa Maria (RS) Carla Callegaro Corrêa Kader pesquisou o interesse de alunos de uma escola daquela cidade pela autoajuda. Diz ela, no preâmbulo da consulta: "Na última década (anos 90 e começo dos 2000), a procura por livros de autoajuda aumentou entre os brasileiros. Diversos autores surgiram escrevendo manuais e obras que pregam a realização pessoal, concretização de sonhos, cura de doenças, dicas para atrair o ser amado, como ficar rico, entre outros. Entre os autores mais requisitados do gênero estão Roberto Chinyashiki, Lauro Trevisan e Paulo Coelho. Mas o que estaria levando as pessoas a buscar a autoajuda? No meio acadêmico e entre os intelectuais, uma das explicações plausíveis para o fenômeno seria a situação política e social do país, ou seja, o clima de instabilidade econômica e social que, por consequência, levaria o indivíduo a um estado de insegurança e instabilidade emocional."

Pois bem, vencida esta etapa da autoajuda, que esmaeceu, mas ainda não desapareceu, surge a 'popularização' da filosofia pela forma mais simples que isso poderia ocorrer: com a linguagem fluída contemporânea, fruto da 'modernidade líquida', em que tudo é instantâneo e muito rápido. Curioso como Karnal, Cortella, Barros e Pondé se utilizam deste instrumental, que inclusive é motivo de preocupação em suas reflexões, para levar seu pensamento a todos de forma acessível. Não o defendem, necessariamente.

Mas a forma não é o principal. O que interessa é a consistência do conteúdo. No mínimo, fazem pensar. Com integridade intelectual, não pedem que concordem com eles, nem devemos lê-los como fórmula mágica para o conhecimento. São céticos e críticos quanto ao receituário de felicidade como nosso sistema de vida nos apresenta. Também não ensinam filosofia pura, fazem reflexões e inflexões de temas filosóficos, como a vida, a morte, a convivência em sociedade, política etc.

Li, recentemente, o livro "Filosofia para Corajosos", de Pondé, presente de minha amiga Marilena Berriel Joaquim. Seguirei lendo os demais filósofos para conhecê-los um pouco melhor e subir um degrauzinho no limbo de minha ignorância filosófica. Ou descartá-los como interlocutores nesta aventura humana do autoconhecimento, o que acho improvável.

Comecei a ler "Todos contra Todos", de Leandro Karnal. Em seguida, será a vez de "Verdades e mentiras - Ética e democracia no Brasil", escrito em conjunto por Karnal, Pondé e Cortella, mais o jornalista Gilberto Dimenstein.

É interessante ler os filósofos pop star para exercitar o 'pensar fora do senso comum' e depois buscar o aprofundamento, quem sabe até mesmo em um curso de filosofia, atualmente sofrendo ataques da política de resultados de muitas universidades e fechando, mas fundamental em um país que se deseja menos idiota e mais sério.

'Pensar filosoficamente o mundo pode ser bom ou ruim. Não há garantias de que você seja mais feliz porque pensa a vida filosoficamente', alerta Pondé. Mas uma coisa é certa: a filosofia amplia a liberdade e os horizontes pessoais e nos dá a possibilidade de ser alguém mais consequente em razão, pensamentos e emoções.