Bauru e grande região

Segundando

Aurora da vida

por João Jabbour

04/02/2018 - 07h00

Na primeira semana de aula, para ser exato na última quinta-feira, a professora de Português explicava, da forma mais simplificada possível, sobre a teoria da comunicação a alunos da sexta série de uma escola bauruense. "Receptor, emissor, canal, código, mensagem e meio", elementos essenciais na integração humana. Em determinado momento, a mestre pergunta à classe se alguém poderia dizer o que seria um canal da informação, citando como exemplo a área da religião, um 'canal para propagar a religião'. Uma aluna não pensou duas vezes e interveio: "A Rede Vida, professora". Risos gerais e admiração pela criatividade da estudante. Mas o canal a que a professora se referia era a voz humana, a voz do padre no caso, como forma de propagação da mensagem religiosa.

Esta singela historieta, entre tantas no dia a dia de uma escola, é apenas para ilustrar um dos fatos mais relevantes de qualquer início de ano: a volta às aulas, o começo de um novo ciclo de formação educacional.

Minha filha Anabella está radiante, feliz da vida, com o retorno à sua 'profissão' enquanto uma pré-adolescente: a de estudante. De fato, estudar é mesmo um ofício reconhecidamente importante, tanto que em fichas de identificação e cadastramento pessoal a palavra 'estudante' pode tranquilamente preencher o campo 'profissão'.

Para crianças e jovens, ir à escola é o segundo sentido de suas vidas. O primeiro é a família, evidentemente. Bella está eufórica. Ainda mais porque mudou de colégio e, com isso, vai inaugurar nova forma de aprender e se desenvolver, além de se incorporar a novas turmas de amigas e amigos. De quebra, está começando seu dia com a aurora, ao acordar logo por volta das 6h, junto com o sol. Aliás, ela já concluiu que a manhã passa mais depressa do que a tarde. Não sei se a ciência já descobriu isso...

Atento a toda essa nova movimentação lá em casa (Fabiana, minha adorável esposa, é professora e também acorda cedinho), de olho vivo nas mudanças da vida de Bella e da família e caindo da cama com o barulho de liquidificador, da torradeira, do chuveiro e da cachorra (Babalu), comecei 2018 alimentando a saudade dos tempos de infância e juventude.

Curtir aquela que dizem ser a melhor fase da vida não significa apenas sentir-se saudosista, mas, acima de tudo, observar, admirar e envolver-se com a mais doce, inquieta e imprevisível movimentação de agrupamentos humanos da face da terra: a de meninos e meninas indo à escola, em busca de novo sentido para suas vidas.

Quando tinha 11 anos, ia para o colégio de conga no pé, meia soquete branca, bermuda de tergal e guarda-pó com dois grandes bolsos laterais, tendo a tiracolo a lancheira com Ki-Suco e pão com mortadela. Presunto e queijo eram raridades. Odiava a conga, preferia o Kichute, mas este era mais caro. Um kit bem feinho, reconheço, porém, dava para o gasto. Deparei-me com um velho retrato escolar outro dia, no fundo de uma antiga mala de fibra que meu pai usava para vender armarinhos, e quase não acreditei no que vi...

Independentemente de época e personagem, basicamente os estudantes parecem ter os mesmos instintos, professam um credo em comum e seguem um código de conduta. Em uma educação formal chata que não se renova, eles cumprem o combinado com os adultos, estudam e se formam, mas exigem contrapartida. São adoráveis na frente do diretor da escola, sérios diante dos professores, insolentes quando estão no pátio da escola e seres altamente perigosos quando estão em bandos pelas ruas em frente à escola.

Quando chegam em casa, ao final do dia, após terem invertido toda a lógica do universo, estão cansados, não querem tomar banho, tentam passar ao largo do jantar caprichosamente posto à mesa e tudo o que desejam é um canto para desabar.

É quando nos olham com as pálpebras semicerradas e dizem que nos amam. Então, todo o cansaço e a desesperança que nos causam certos fatos do cotidiano se dissolvem, e voltamos a ter o maior dos motivos para começar o dia seguinte rompendo as barreiras da insensatez que moldam a vida em sociedade. Bom dia!