Bauru e grande região

Segundando

Intolerância

por João Jabbour

18/03/2018 - 07h00

Nada justifica a morte provocada. Nem a mais aguda discordância em relação ao que o outro pensa, fala ou faz. A intolerância disseminada aos quatro cantos nos mundos físico e virtual dá claros sinais de que estamos no limiar de algo muito grave. Aliás, para a vereadora carioca Marielle e o motorista Anderson e suas famílias, o mais grave que podia acontecer já aconteceu.

Independentemente de suas posições políticas e ideológicas, eles morreram. Suas vidas se foram. Não voltam mais. Ponto final. O mesmo vale para tantos outros assassinados, desde aqueles com motivações políticas até os que ocorrem com uma bala perdida ou uma briga imbecil em estádio de futebol. Não importa se os mortos são de esquerda, direita ou centro; se verdes, azuis ou vermelhos; se Corinthians, Palmeiras ou São Paulo.

A vida é direito universal. Pelo menos a humanidade assim o convencionou ao longo da história, à exceção dos casos de guerra declarada entre países, onde matar é permitido e, mesmo assim, há convenções que impõem limites. Como é também direito inato ao homem a livre expressão do pensamento. E quando há excessos no exercício dos direitos, há leis para punir. Pois não há direito ilimitado, com exceção, talvez, do direito biológico de viver.

Para viver em sociedade há regras, embora muitos tentem burlar ou as impor de forma parcial, a seu bel prazer e interesses escusos e sectários. Mas há um consenso cultural do viver-comum, o que pressupõe a aceitação das diferenças.

A intolerância é também aquela sensação que faz certas pessoas sentirem um 'gostinho' perverso quando veem que a vítima da violência pertence ao lado oposto à sua forma de pensar. Um desvio de conduta inquietante. Evidência de que se perdeu o senso de humanismo e a barbárie se instalou, ainda que oculta, no íntimo de cada um dos intolerantes.

O contexto dos fatos presentes é de protestos pela morte de uma militante de esquerda, mas a advertência geral que a intolerância gera, não é de hoje, vale para todos. Em tempos de extremismos, todos têm passado dos limites em suas crenças, discursos e práticas.

Não há vencedores nesta guerra, como em nenhuma outra, do ponto de vista do processo civilizatório. E vencer não é ganhar uma eleição ou uma disputa qualquer. Mas alinhavar um pacto social sob o qual se consiga construir um país menos desigual, seguro e próspero. Quem vai governar, esquerda, direita ou centro, pouco importa, desde que a sociedade, com suas instituições, estatais e da sociedade civil, esteja no controle, sob um verdadeiro Estado Democrático de Direito. Em países mais resolvidos, há alternância de correntes ideológicas no comando do Estado e nem por isso o tecido social entra em convulsão.

Esse discurso contra a intolerância é desmobilizador? É simplesmente moralista? Unilateral? Penso que não. Porque não há nada nem ninguém na face da terra que possa se dar o direito de não tolerar o modo contrário em meio a uma espécie de seres que pensam e, logo, divergem. Discutir, combater e até provocar rupturas, se necessário, para mudar são atitudes possíveis, mas podem dispensar a intolerância, creio, talvez inocente e utopicamente.

Viver em uma democracia significa, basicamente, tolerar as divergências. Pode-se, seguramente, discordar, mas respeite-se o direito ao livre arbítrio, mais ainda em um país tão pluralista em religiões, ideologias, crenças e etnias. De outro modo, vira ditadura, autoritarismo, regime de exceção, supressão da liberdade!

Há uma sensação no ar de que são cada vez maiores os agrupamentos que pouco se lixam para democracia, à esquerda e à direita, embora usem a palavra a cada parágrafo de seus discursos populistas. Pura hipocrisia.

E há uma onda mundial que busca soluções nas extremidades e nos atalhos acidentados do conhecimento humano. Tendência que reverbera fortemente no Brasil, onde a crise política e econômica é palco ideal para esta guerra bestial sem regras nem um mínimo de compostura ética.