Bauru e grande região

Segundando

"Schadenfreude"

por João Jabbour

25/03/2018 - 07h00

De onde vem o mórbido desejo de torcer e sentir prazer pela desgraça alheia? Que gosto amargo de fel é este em relação ao infortúnio de outras pessoas que muitos gostam de ter na ponta da língua?

Em tempos drásticos como estes, o lado perverso da personalidade humana fica ainda mais exposto e a comparação unilateral com o outro parece provocar uma catarse interior de tal dimensão que provoca até a sensação de satisfação vitoriosa.

Uma matéria no jornal The New York Times, assinada por Christie Aschwanden, informa que os alemães usam o termo "schadenfreude" para esse prazer mesquinho sobre a tragédia do outro. Traduzindo ao pé da letra significa "a alegria do mal". O tema é estudado há um bom tempo pelo professor de psicologia Richard H. Smith, da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos. Desde 2000, ele publicou cinco livros sobre o assunto, que falam sobre comparações sociais, inveja e a "schadenfreude" num contexto político e de identificação social.

Basta uma olhada ao lado, ou um pouco mais além, para percebermos o que popularmente podemos chamar de "olho gordo" lançado sobre alguém. Quem tem estes órgãos vitais do corpo humano em estado superlativo e deformado parece se sentir diminuído em relação ao sucesso alheio. Então começa a torcer para que o outro tropece e "caia" ou "se reduza" ao mesmo patamar do invejoso e este se sinta "melhor". É mais comum do que podemos imaginar.

Por que será que muita gente gosta de ler ou assistir a cenas de tragédias pessoais ou coletivas? Em tempo: eu disse gostar! Porque se informar por necessidade de abstrair convicções políticas, sociais ou culturais é outra coisa, e é necessário. Então, pode continuar lendo ou assistindo sem problema, se não for só para alimentar seu "schadenfreude".

Quanto mais desgraça na tela ou no papel tanto melhor para as audiências ensandecidas por abastecer uma das mais desprezíveis manifestações do instinto humano. Os reality show, tipo Big Brother, são a mais avançada síntese da exploração desta fraqueza humana com objetivos comerciais.

E a "schadenfreude" fica mais forte ainda quando o castigo de alguém parece ser merecido. Estamos vivendo exatamente isso em relação a vários políticos graúdos da vida nacional. Muitas vezes, este sentimento, recôndito a princípio, avança em direção ao desejo explícito, por vezes materializado na forma de vingança, e a sensação fica intensa, latente, podendo gerar violência.

Falo por mim, é claro, mas diz que é ser humano e nunca sentiu ao menos um pouquinho de "schadenfreude", nem que seja, inofensivamente, torcendo para que o time de seu amigo perca de goleada e deixe de disputar o campeonato... (Rsrsrsrs)

E então, inevitavelmente, nos lembramos de Thomas Hobbes, filósofo inglês que viveu entre os séculos 16 e 17, segundo o qual o homem é mau por natureza, isto é, vive em estado permanente de guerra como forma de conquistar aquilo que não tem. É uma longa discussão, porque, de outro lado, temos o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (século 18), que afirma ser o meio (a sociedade) que corrompe as pessoas. Apenas concordam que o homem tem o direito de preservar a si mesmo.

Enquanto não resolvemos mais essa encrenca em que estamos metidos, amuletos são os únicos remédios para espantar a zica alheia. Há muitos - patuás, colar de dente de javali, trevo de quatro folhas, bagua, colar de contas , Buda, pimenta malagueta, escapulário, ferradura, figa, Senhor do Bonfim... a lista é enorme.

Mas viver não é tão desastroso assim.

O já saudoso astrofísico britânico Stephen Hawking assim nos sintetizava: "Somos apenas uma estirpe avançada de macacos em um planeta menor de uma estrela muito comum. Mas podemos entender o universo. Isso nos faz muito especiais".