Bauru e grande região

Segundando

Encontrei Saramago em São Paulo

por João Jabbour

01/04/2018 - 07h00

“O sonho é uma realidade virtual, o homem das cavernas já conhecia a realidade virtual”. Este fragmento irônico de uma reflexão mais ampla sobre o universo digital, do saudoso escritor José Saramago, está exposto em uma mostra, em dois andares de um dos mais emblemáticos espigões de São Paulo, o antigo ‘prédio do Banespa’ (Altino Arantes), na área central da Capital, parte do Centro Cultural Farol Santander, do banco espanhol que comprou o velho ‘Banespão’.

O edifício, inaugurado em 1947, pelo governador Ademar de Barros, foi inspirado na arquitetura art decó do famoso Empire State Building, de Nova Iorque.

Por sinal, para quem vai à Paulicéia, uma sugestão de passeio muito interessante e barato (R$ 15,00) onde, além da exposição de Saramago, com imagens e entrevistas em vídeo do autor, é possível apreciar outras obras de arte incríveis em andares diferentes, conhecer o pavimento (5º) em que trabalhava a diretoria do banco, com suntuosos móveis em estilo clássico preservados, além de poder avistar a megalópole lá de cima, através de sacadas envidraçadas, no alto da imponência de 35 andares.

São Paulo continua linda! Pelo menos para quem vai a passeio. Morei lá por seis meses, em 1980, e gostei, mas logo a seguir (1981) vim estudar na antiga Fundação Educacional de Bauru (hoje Unesp) e me fixei aqui, por todas as grandes oportunidades que tive. Talvez volte um dia para levar uma vida de aposentado naquela cidade de 11 milhões de pessoas e o ‘mundo todo’ a meu dispor, como bem disse Caetano Veloso em ‘Vaca Profana’.

Enquanto isso, me divirto fazendo visitas esporádicas e rápidas à cidade que não pode parar. Certa vez, ouvi alguém dizer: “São Paulo é bonita, mas quando ficar pronta ficará mais ainda...”

Aos finais de semana, o trânsito paulistano intenso, mas não caótico (aqui, não raramente, é mais irritante do que lá), dá uma trégua e, então, fica melhor ainda circular por suas belas ruas e avenidas, observar a imponência de seus arranha-céus, entre o clássico e o moderno, um show de engenharia e arquitetura, que abrigam a vida de discreta elegância, trabalho e lazer dos seus moradores.

Depois de ver lá do alto do Farol Santander algumas das mais paulistanas paisagens cimentadas e envidraçadas, a Avenida São João com a Ipiranga, o Mercadão, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, o Mosteiro de São Bento, o Viaduto do Chá, o Parque Dom Pedro, a Rua 25 de Março, a Estação da Luz, o Viaduto Santa Ifigênia, o ‘Mappin’, a ‘Ducal”, o Teatro Municipal, o Anhangabaú e tomar um chá no charmoso Café Suplicy, que fica no mesmo local, saímos para jantar.

O local escolhido por nossos anfitriões Juliano e Franciane foi uma charmosa e autêntica ‘forneria’ em Moema – a Sant’ Antonio, do mestre Robertinho, que já foi jogador do São Bento de Sorocaba e nos anos 70 enfrentava o Noroeste, no Alfredo de Castilho.

Muito simpático, após um diálogo em que trocamos algumas informações sobre nossas cidades, ele nos serviu uma autêntica pizza artesanal feita com uma das melhores farinhas da Itália, a Le 5 Stagioni, da cidade de Pádua (daí o nome da casa, Sant’ Antonio de Pádua), com a borda larga, como é lá, e recheio impecável, impossível de descrever aqui, porque não perguntei sobre esta parte, uma vez que saboreava um ótimo vinho obviamente italiano, do qual não me lembro o nome agora.

Com apenas uma porta de entrada, bem ao estilo das cantinas italianas, a forneria fica na rua Gaivota, 380, Moema. As mesas, com toalhas quadriculadas em vermelho e branco, ficam, em sua maioria, na calçada. Não mais do que quatro ou cinco. Muito aconchegante. Lá dentro, duas mesas, a plataforma onde a massa é preparada e o forno a lenha ao lado. Italianíssima, paulistaníssima!

Ah! Antes disso tudo, almoçamos em uma padoca, claro, levados por meu sobrinho Pedro! Um prato-feito delicioso - virado a paulista, que só lá sabem fazer.

Despeço-me de São Paulo relembrando outra frase de Saramago, polêmica e ácida, como sua obra: “Quem quer ser bom hoje, simplesmente bom? O necessário é triunfar, essa é a regra, todos queremos aparecer como triunfadores”.