Bauru e grande região

Segundando

Café com jornal

por João Jabbour

22/04/2018 - 07h00

Conta a lenda que no Nordeste da Ásia (região do Sudão e Etiópia), no Século VII, um pastor chamado Kaldi observou que seus carneiros ficavam mais espertos ao comer as folhas e frutos de uma árvore que depois viria a ser conhecida como cafeeiro. Curioso, e sugestionado, ele também experimentou os frutos e sentiu maior vivacidade. Um monge da região, informado sobre o fato, começou a utilizar uma infusão desses frutos para resistir ao sono enquanto orava. Do continente africano foi levado ao Oriente Médio, onde foi batizado de Coffea arabica e, de lá para cá, o café e a cafeína ganharam o mundo.

Minha melhor e mais ampla experiência com essa bebida vem do Café com Política, espaço livre do Jornal da Cidade que recebe, como diriam os colunistas sociais, gente de A a Z, diariamente. Políticos, artistas, esportistas, empresários, sindicalistas, anônimos, quase todos aceitam, quase que automaticamente, a oferta de uma xícara de café, logo na chegada. Depois, conforme o assunto avança, a prosa fica melhor e a boca resseca, seguem-se outros cafés. Sedutora, a bebida acaba nos ajudando a saber de alguns segredinhos que depois se tornam boas reportagens...

O Dia Mundial do Café é celebrado anualmente em 14 de abril, ou seja, fez aniversário há uma semana. É uma das bebidas mais famosas do mundo, todos sabem. E há formas diferentes de preparo. Me lembro que o saudoso Maurício Lima Verde Guimarães, bauruense que representou o Brasil nas reuniões mundiais sobre o café, na Inglaterra, sempre que vinha ao jornal ia até a cozinha para ver se estávamos fervendo o café com açúcar.

Maurício ficava tão bravo com essa heresia que nos repreendia antes de iniciar a entrevista se percebesse que o café havia sido adoçado na fervura. Portanto, um erro básico, na opinião de quem entende muito dessa bebida que merece muito esmero em seu preparo. Acho que o primeiro dos muitos 'Por quês?' que caracterizavam os escritos de Lima Verde à tribuna do leitor do jornal foi em relação a esse procedimento. 'Por que açúcar na fervura do café?''

Aliás, muita gente toma o café sem açúcar ou adoçante. Apenas com o sabor da fruta. Fica interessante mesmo, embora eu confesse que ainda coloco açúcar, agora em doses menores e mais envergonhadas...

E o que dizer dos cafés que Bauru tem? Aliás, ''exportamos' o Fran's para o restante do País, assim como emprestamos o Lima Verde para nos representar lá no Exterior. Temos os ótimos Café do Lira (na Galeria 21 Center), o CafeZinho, do Raduan, na quadra 7 da Batista, locais onde se reúnem políticos e lideranças para colocar em dia as fofocas do setor. E vários outros cafés onde a bebida é a única unanimidade a costurar as divergências eternas entre os homens. Por vezes, servindo até para reconciliar.

Há outra lenda que diz que, no século XVII, vários padres italianos pediram ao papa Clemente VIII que proibisse o consumo de café, considerado uma bebida criada por Satanás para os infiéis. Naquela época, o café era muito popular entre os turcos muçulmanos e as tribos africanas não cristãs. Natural, até porque foi onde a bebida surgiu. O papa, muito prudente, quis avaliar o pedido e solicitou um café para provar. Segundo a escritora britânica Claudia Roden, no livro "Coffe: A Connoisseur's Companion", de 1981, o papa teria provado um café da melhor qualidade e, logo em seguida, declarado: "Pois bem. Esta bebida de Satanás é tão deliciosa que seria um pecado deixá-la somente para os infiéis. Enganemos Satanás batizando-a!". Dizem que o atual papa, Francisco, adora chimarrão, como argentino que é, mas não abre mão de um cafezinho...

Essa crônica não é uma propaganda para o café, mas alguns estudos dizem até que a bebida pode ser estimulante sexual. Porém, cuidado! Café também mata. Se você tomar 100 xícaras no intervalo de uma hora, pode sofrer um colapso e cair duro.

E uma coisa eu garanto: café com jornal, de manhã, faz muito bem para começar o dia!