Bauru e grande região

Segundando

Crimes sexuais

por João Jabbour

06/05/2018 - 07h00

Dentre os assuntos de segundo escalão em destaque na imprensa durante a semana que terminou ontem, o cancelamento da entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e os depoimentos à Justiça do cardeal australiano George Pell, terceiro na hierarquia do Vaticano, ambos por denúncias de escândalo sexual, chamaram a atenção. Podemos somar a eles a prisão do ex-prefeito de Bariri Paulo Henrique Barros de Araújo, sob acusação de abuso sexual contra crianças, que também teve desdobramentos nos últimos dias.

O que leva gente bem-sucedida na vida profissional a cometer crimes desta natureza e aniquilar suas reputações, mas principalmente as vidas das crianças abusadas? Compulsão sexual, mau-caratismo? Ou não é doença nem desvio de conduta? As duas coisas juntas talvez...

Por incrível que pareça, somente há pouco tempo a infância e adolescência passaram a contar com proteção legal do Estado contra todas as barbaridades que se possa cometer contra elas. Até então, estavam sujeitas a toda gama de abandono, maus tratos, ataques sexuais, físicos e infanticídio. No Brasil, por exemplo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é uma lei que tem apenas 27 anos. As crianças existem desde o princípio da humanidade, mas a invenção da infância, com todos os cuidados que ela requer, é muito recente.

Além dos aspectos físicos em plena ebulição, a vida psíquica de uma criança passa por transformações e adaptações intensas nos primeiros 15 anos de vida que as acompanharão durante toda a vida. Imagine um menino ou menina que sofre um trauma como o abuso sexual! Não por acaso este tipo de ataque vil e covarde passou a ser considerado crime hediondo.

Até a Idade Média, não havia diferenciação entre infância e fase adulta. Ambos eram considerados seres de único tipo. Tanto que pode ter surgido naquela época a definição 'adulto em miniatura'.

A ciência ainda tenta entender o que se passa na cabeça de um pedófilo ou criminoso sexual. Uma das razões deste comportamento seria o fato de que quem sofreu abusos desta natureza quando criança tende a repetir o mesmo ato quando adulto. Mas Há os casos de quem não sofreu abuso, mas acha crianças sexualmente atraentes. Haveria razões biológicas, além das psíquicas, para este mórbido prazer, segundo pesquisadores.

Quando o cérebro doentio do pedófilo for mapeado talvez possa existir, a partir daí, alguma forma de identificar pessoas com este desvio e prevenir com algum tipo de tratamento a ocorrência de abusos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) deve incluir, em maio de 2019, o "transtorno do comportamento sexual compulsivo" em sua lista da Classificação Internacional de Doenças. Importante: a compulsão sexual não leva, necessariamente, alguém a ser um pedófilo.

Até que haja algum tipo de segurança, o melhor é as família se prevenirem. Pais e mães minimamente zelosos sabem as providências que devem adotar, sem excessos nem paranoias, para evitar que os filhos se tornem alvos em potencial de pedófilos.

Então surge a perguntar: como identificar um pedófilo e prevenir um assédio? Não há uma característica física, psicológica ou profissão que seja comum a todos eles. O melhor a fazer, segundo orientam aqueles que estudam o assunto, é ficar de olho nas crianças, conhecer e vivenciar todas as suas atividades, nas ruas e na internet. Os pedófilos atacam mais os pequenos que não recebem os cuidados e atenção devidos dos pais. De outro lado, também é bom observar com muita atenção adultos que apresentem comportamento anormal e sequencial em sua relação com os pequenos.

O assunto de hoje é pesado, mas necessário, para que crimes sexuais contra crianças, e mesmo com adultos, não se tornem apenas um novo item de uma rotina de insegurança que não desperta mais a indignação e a mobilização das pessoas de bem. Foi assim com a corrupção durante muitos anos, tanto que esta praga que ataca o dinheiro público se institucionalizou.

Porém, crimes contra a vida são de maior relevância. Dinheiro se recupera, mas a dignidade e a saúde mental, nem sempre... ou quase nunca.