Bauru e grande região

Segundando

Seis longos, mas necessários, meses...

por João Jabbour

27/05/2018 - 07h00

Chegamos à metade do ano enfrentando os reajustes dos combustíveis, diesel principalmente, dos demais derivados do petróleo, a paradeira geral resultante dos protestos dos caminhoneiros, seus reflexos no abastecimento e já sabendo que o otimismo com a recuperação econômica do País estava superestimado. Se o PIB crescer 1,5% neste ano será muito.

Do otimismo lastreado mais em desejo e menos na realidade ao sonho com o bom acaso do outrora país abençoado por Deus, vamos levando o cotidiano do faz de conta... O preço por nossa inércia e falta de unidade enquanto sociedade ao longo de décadas é caro mesmo! Não adianta reclamar da sorte nem do frio.

O Brasil está paralisado pelos caminhoneiros e sofrendo a escassez de produtos. O governo - tampão, esfacelado e desacreditado - se mostrou incompetente para antecipar os fatos e resolver o problema negociando. Mais do que isso, deram toda autonomia à Petrobras e seu presidente para praticar políticas de preço como se o País girasse em torno apenas do balancete da Petrobras. Estrangularam os que vivem de transportar cargas, principalmente os autônomos.

Até aí, sem novidades. As reivindicações dos caminhoneiros são justas (desde que respeitem os limites) e o Estado brasileiro, governado há muito tempo por gente da pior espécie, é ineficiente e corrompido. Outras manifestações virão por aí, não tenhamos dúvidas.

Os próximos seis meses serão longos e vão requerer paciência, muita calma e atitudes razoáveis de cada um de nós. Atitudes que, recomenda-se, devem começar em casa, com um planejamento do orçamento doméstico mais adequado a tempos bicudos no médio e, talvez, longo prazo.

Se desse para hibernar, como os ursos, até o inverno passar, seria interessante. Mas covarde, pois não resolveria e manteria a transferência de nossa responsabilidade como cidadãos a terceiros. Fizemos isso ao longo de toda a história e o resultado aí está, ultrapassando o limite suportável da nossa cordialidade.

Dias destes, tentaram iniciar algumas campanhas via redes sociais, como, por exemplo, a mais recente delas: ficar dois dias sem abastecer nos postos. Até poderia ocorrer, mas seria um gesto mais simbólico do que efetivamente uma pressão suficiente para aplacar a sanha de maus empresários e políticos.

E o problema não são apenas eles. Somos nós, também!

Os protestos contra a ordem econômica e política nacional, da forma como estão ocorrendo, não são de hoje. Sem lideranças conhecidas, nascem quase que de uma fagulha em um ou outro setor que parecia adormecido e remetem aos famosos protestos dos R$ 20 centavos, de junho de 2013. Serão uma constante até que algo novo aconteça e aponte para, se não a solução de tudo, ao menos a um 'norte' pactuado pela sociedade.

Não se sabe se a eleição presidencial de outubro será capaz de aplacar o desgosto geral da Nação com a própria Nação. Talvez os resultados do futuro novo governo sim. Talvez...

A responsabilidade de quem vai assumir as rédeas da República a partir de janeiro de 2019 é colossal. Por isso será preciso encontrarmos alguém de muita capacidade mental, política e emocional e não um aventureiro/bravateiro qualquer... E termos, cá no mundo real dos mortais, muita ponderação e atenção com cada passo dos demais políticos eleitos.

Os movimentos nas ruas (e estradas) são legítimos do ponto de vista da busca de um país menos injusto, menos segregado e menos concentrador de renda. Não há parto sem dor, já diz o ditado. Teremos de ter, no restante deste ano (e nos próximos), muita reflexão e posicionamento decididos.

Teremos de saber alinhar a revolta e angústia com o respeito à Constituição, ou seja, com os direitos de todos os cidadãos. Em toda ruptura há excessos, alguns até premeditados, para causar o maior impacto possível e, assim, forçar a mudança do cenário. Não há omelete sem quebrar ovos, diz outro sábio adágio.

"O Brasil é para profissional", afirmou, certa vez, Tom Jobim, com enorme dose de ironia.

Agora, então, mais do que nunca, maestro Antonio Carlos Brasileiro Jobim!