Bauru e grande região

Segundando

Nosso Leviatã

por João Jabbour

10/06/2018 - 07h00

Originalmente, Leviatã é um enorme monstro marinho que se tornou lendário e mitológico em épocas remotas, antes mesmo da Era Cristã (é citado, inclusive, no Antigo Testamento). Leviatã também está no título de uma renomada obra do cientista político inglês Thomas Hobbes (1588-1679), na qual ele disserta sobre a natureza humana e sua virtual necessidade por um governo central e autoritário, que concentre fortemente o poder em torno de si, ordenando todos os rumos da sociedade.

Qualquer semelhança com o Estado pesado que incide demais em nossas vidas atualmente não é mera coincidência.

Para votar, discutir política no facebook ou no zap zap, na rua e no trabalho com alguma consequência e seriedade é preciso conhecer conceitos básicos da formação política do país, como isso que se convencionou chamar de Estado. Do contrário, todas as manifestações à base de 'chutes', ideias fragmentadas e conveniências emotivas não passam de blá-blá-blá, mi-mi-mi, tudo seguirá como está e nós, como meros espectadores.

O que é o Estado e seu papel na sociedade brasileira deveria ser, mais do que um motivo de interesse do cidadão, tema central do debate entre os candidatos à Presidência da República. Mas não é o que se vê.

O que me leva a falar sobre isso, além da crise monstruosa do Estado brasileiro, que afeta a cada um dos 213 milhões de brasileiros, é um excelente documentário de 25 minutos ("O Estado Sou Eu")que o canal a cabo Curta está exibindo em diversos horários (hoje será às 9h50 e amanhã às 11h30). Na Net, o Curta está no canal 56 (ou 556), mesmo número na Claro. Na Vivo, canal 664.

"O Estado Brasileiro é um Estado privado. Ele nunca foi um Estado público". A ácida frase do filósofo Vladimir Safatle define bem algo que foi praticamente unânime entre os intelectuais ouvidos na série "Alegorias do Brasil", com o episódio que leva o título de "O Estado Sou Eu". Por sinal, a série 'Alegorias do Brasil' é uma ampla análise das raízes históricas do País, as mazelas e qualidades que formam nossa brasilidade. "O Estado sou eu" é uma famosa frase do monarca absolutista francês do século 17 Luís XIV, que governou a França despoticamente por 72 anos, o mais longo período de um governo monárquico da história.

Criado em 2012, o canal Curta é um raro exemplo de como ainda dá para ver televisão e não emburrecer. Quase todo o restante é passatempo, de qualidade altamente questionável.

Voltando ao tema, Safatle, Antonio Risério, Arno Wehling, Beatriz Resende, Edmar Bacha, Eduardo Jardim, Guilherme Wisnik, Gustavo Franco, Heloí¬sa Starling, Manolo Florentino, Muniz Sodré, Nuno Ramos, Pérsio Arida, Renato Lessa e outros discorrem sobre a personalidade que marca o Estado brasileiro e atende pelo nome de patrimonialismo.

No caso, um Estado historicamente, desde as capitanias hereditárias, patrimônio de poucos, ou seja, daqueles que conseguem ter mais força e poder para usar a seu favor a máquina pública que, direta ou indiretamente, manipula toda a riqueza produzida pelo País para atender a interesses privados e não públicos. Uma perversa inversão da lógica, o que explica muito da atual dramaticidade brasileira.

Começamos como colônia, lembrou um dos entrevistados e, pode-se dizer, seguimos até hoje. Talvez colônia de nós mesmos...

Quando Laura de Mello e Silva fala da origem do País nas capitanias hereditárias dá para lembrar, automaticamente, das famílias, partidos e 'famiglias' que há décadas têm cadeira cativa no comando do Estado, através de sucessivas gerações de seus membros. Nem preciso citar sobrenomes, não é mesmo!? Basta desviar o olhar ao Planalto Central e vislumbrar quase que automaticamente.

Enorme parcela dos bilhões de dólares que o Estado brasileiro deve e que faz com que os governos aumentem os impostos e cortem benefícios sociais constantemente para pagar vem da encampação pública de dívidas que eram de particulares, como a de bancos, por exemplo, e de empréstimos vultosos que o BNDES faz a empresários, em condições amplamente favoráveis, dinheiro que, em grande parte, não volta mais aos bens públicos.

Se não redefinirmos o papel do Estado, tornando-o público novamente, o Leviatã vai nos devorar cada vez mais. Depois, não adianta reclamar.