Bauru e grande região

Segundando

Tentando dormir

por Cinthya Nunes

21/10/2018 - 07h00

Em geral não sou uma pessoa mal-humorada. Ao menos não é assim que me vejo ou que o costumo ouvir sobre mim. Desde sempre, no entanto, há situações que me deixam muito rabugenta e brava. Não dormir o suficiente, com certeza, é uma delas. Não é como se eu precisasse dormir muito. Bastam seis a sete horas, mas preciso dormir bem, o que, nos últimos dias, tem sido difícil.

Nessa semana, por exemplo, tive um raríssimo momento de poder voltar para casa e almoçar. Como eu tinha, excepcionalmente, uma hora antes de sair para outro compromisso de trabalho, não hesitei em planejar uma soneca. Sempre fui fã de dormir depois do almoço e quando criança esse era um compromisso diário com meu bem-estar.

A gente cresce, bem como crescem nossas preocupações e problemas. A vida de adulta não deixou muito espaço para siesta, lamentavelmente. Naquele dia, pleno meio de semana e eu diante de uma oportunidade imperdível. Deitei na cama mesmo, nem arriscando o sofá. Fechei as janelas para diminuir a luminosidade e me cobri, aproveitando o ventinho que viera depois de uma chuva leve.

Em poucos minutos eu estava nos braços de Morpheus e de fato achei que estava no Céu, pois comecei a ouvir uma música alta que dizia algo como "Nos braços de Jesus eu encontro meu lugar". Eis que de repente eu escuto "olha aí minha senhora, o carro do ovo está passando na sua rua" e acordei sem entender exatamente o que colocava Jesus e trinta ovos por dez reais no mesmo contexto.

O bendito carro dos ovos intercalava seu anúncio comercial com música gospel, tudo no mais alto som possível. Resolveu passar exatamente na rua de casa, sem pressa de ir embora. Tudo estava irremediavelmente perdido: meu tempo se esgotou e acordei, sem ter dormido de verdade, com uma imensa dor de cabeça.

Hoje mesmo, dia em que escrevo esse texto, estou com o pensamento fixo em dormir, ou melhor, em não conseguir dormir. Às quintas-feiras, embora eu trabalhe o dia todo, começo a dar aulas somente às 10h. Assim, posso dormir até as 8h. Poder, contudo, não é sempre sinônimo de conseguir.

Por motivos que são estranhos a minha compreensão, todos os duzentos mil cães (talvez sejam só seis) da minha rua de um quarteirão, resolveram latir misteriosamente, juntos, às 6h45. Como uma sinfonia desordenada, alternavam ganidos com uivos e latidos. Fui ingênua a ponto de acreditar que seria algo passageiro, mas a coisa toda durou cerca de uma hora, período no qual persisti no meu intento de dormir, mas tudo que consegui foi apenas uma espécie de ressaca e um humor que nem de longe era bom.

Achei que tudo isso era apenas uma onda de má sorte e que em breve eu poderia, por fim, descansar de forma apropriada, mas uma vez mais o Universo não estava conspirando ao meu favor. Pensei que seria possível compensar o estrago canino da manhã e cancelei um compromisso para poder descansar um pouco.

Ajeitei-me no sofá e fechei os olhos, cheia de esperança. Por alguns minutos achei que sairia vitoriosa, mas assim que notei que bigodes felinos roçavam meu rosto e que patinhas escalavam minhas costas, descobri que só me restava levantar e esperar por dias ou noites melhores.

Mas o fim de semana chegou e não há nada que um protetor auricular e uma porta fechada não resolvam. Nem mesmo os ovos bentos irão me impedir de me entregar aos prazeres de uma boa dormida. Caso contrário, só mesmo Jesus poderá me fazer dar conta de escrever o texto da próxima semana...