Bauru e grande região

Segundando

Fake país

por João Jabbour

28/10/2018 - 07h00

Fake News (notícia falsa). É o termo que mais se ouviu no grande embate nacional da política que termina hoje. Nada mais é do que a mentira, que sempre existiu, desde os primeiros passos do homem na Terra.

Só que agora a mentira é tecnológica e global - tem fotografia, áudio, vídeo e, principalmente, enorme plateia, formada, em sua maioria, de ingênuos, incautos e acomodados que só querem ouvir o que faz eco a seu ego ou contempla o baixo instinto. Na outra ponta deste telefone sem fio sofisticado está o sujeito ativo a que se se referiu o italiano Umberto Eco ao dizer que a internet deu voz a uma legião de imbecis.

Mas seria apenas este o grande nó de nosso relacionamento social contemporâneo? Seria esta a única mudança que as redes sociais e a modernidade em geral causaram no comportamento humano? E seriam as redes sociais uma espécie de mensageiros do apocalipse, que muitos ainda acreditam, virá?

Será que foi ruim o Facebook, o WhatsApp e Instagram propiciarem a todos falar ao mesmo tempo para muita gente e isso não ser mais exclusivo aos iluminados ou autoridades?

Ora, nada é só ruim ou apenas bom. Nada do que sai da cabeça do homem é tão rudimentar que possa simplesmente ser rotulado de bom ou ruim. E não é razoável nem inteligente atacar os avanços da tecnologia. Porque os circuitos eletrônicos, por si só, não fazem juízo de valor, não inventam nem distorcem fatos, não mentem. Bits e bytes apenas conduzem informação. Vivas à ciência e à tecnologia que domesticam a natureza para nós, caso contrário estaríamos nos escondendo das feras em cavernas.

O problema somos nós mesmos!

E o que este processo eleitoral trouxe de mais interessante a quem quiser ver foi a clareza sobre quem somos, como somos e nossas parcas noções de civilização. Para quem ainda insistia em crer que éramos uma nação quase no mesmo patamar das mais avançadas, se é que alguma delas pode ser classificada melhor do que as outras, acho que não é preciso mais argumentos diante dos fatos e posicionamentos estarrecedores que vimos até mesmo dentro das famílias, em tese o espaço mais protegido da maldade alheia.

O resultado eleitoral de hoje em nada vai encobrir o desnudamento do Brasil enquanto arremedo de um país que passa o tempo se orgulhando de suas belezas naturais e espontaneidade de seu povo. Isso é pouco, muito pouco, para fazer dessa imensidão uma civilização em plenos equilíbrio e harmonia.

Os próprios personagens que restaram nesta disputa, sendo que um deles vai governar o Brasil, é o maior sintoma desse mal-estar civilizatório. Longe, muito longe de terem dois projetos para o País, são dois chefes de meros agrupamentos de interesses e visões de mundo manjados, que até se comunicam em algumas extremidades, que tentam se apresentar com características messiânicas, cujo único mérito é saber catalisar a esperança de milhões de pessoas desinformadas à espera de um 'deus' que as levem ao paraíso. Um triste e paupérrimo sonho de uma noite de primavera.

Por sinal, as nações do Planeta Terra, ou grande parte delas, também vivenciam uma crise que não encontra explicação convincente somente nas análises econômicas e políticas. Difícil saber agora, mas dentro de algum tempo a história talvez nos conte que em 2018 estávamos vivendo uma era de esgotamento total de modelos.

Quem tem um pouco de paz de espírito e serenidade assistiu horrorizado e imobilizado a dois ou três meses de insanidade entre políticos e torcedores destes. Em casa, nas ruas, no trabalho, nas escolas e nas redes sociais. O IBGE ainda não deve ter contabilizado, mas nunca vi tanta gente rompendo relações com os próprios familiares por causa da fé cega neste ou noutro candidato.

Certamente tudo isso deverá servir para algo novo e melhor no futuro. Ou a vida não se recicla a partir de suas enormes contradições?

Sou pessimista com o momento, este texto mostra isso. Mas ele não me faz perder a esperança de que há saídas e que elas nos levarão a um patamar um pouco melhor, um tanto quanto além de um fake país.

Apenas não tenho a ilusão de que será pela sapiência de algum mero cidadão que recebeu essa incumbência de uma entidade divina e se transmutou em salvador aqui na Terra para ser reverenciado como alguém acima do bem e do mal. Isso é coisa dos primórdios da humanidade, quando o homem canibalizava, literalmente, o próprio homem.

"Quanto mais gosto da humanidade em geral, menos aprecio as pessoas em particular, como indivíduos."

Fiódor Dostoiévski