Bauru e grande região

Segundando

Bom Senso Futebol Clube

por João Jabbour

20/01/2019 - 07h00

Sete horas da manhã. Sujeito chega à minha casa para oferecer um produto qualquer e toca a campainha uma, duas, três vezes... seguidas, nervosamente. Surpreso, salto da cama e corro abrir a porta, de ceroula, descalço, com o cabelo desgrenhado e olhos vesgamente esbulhados, para tentar evitar, antes de qualquer coisa, que ele acione a dita cuja pela quarta vez. Em vão... Piiiiiiiiiiiiiii.

Ensonado e me contendo para manter a civilidade, boto apenas a cara além da porta, ouço sua oferta por alguns longos segundos, agradeço e volto para cama. O sono, que só chegou por volta das 4 horas, foi embora com o vendedor, três horinhas depois.

O homem pega no batente logo cedo, deve ser um esforçado pai de família, não tenho o menor direito de dar-lhe uma dura. Podia ter batido palmas (antigo, mas funciona). Ou, na pior das hipóteses, tocado a campainha só uma vez. Mas lhe falta uma coisa: bom senso.

Esse é um pequeno e desimportante exemplo de algo que poderia melhorar, e muito, a vida em sociedade. Principalmente se adotado por quem tem papel destacado e de liderança em qualquer ambiente – família, trabalho, política, redes sociais etc.

Para ter bom senso não é preciso diploma universitário nem fazer curso de etiqueta. É um predicado que a vida ensina a quem neste mundo se propõe a aprender e evoluir, ainda que mínima e teimosamente. Bom senso é a sabedoria de se adequar à forma como nos organizamos coletivamente, com observância da ética, respeito, tolerância, das leis, da diversidade cultural, praticando o desprendimento. É a arte de usar a razão e a emoção na medida certa.

Juro que não estou bravo com o vendedor. Também não desliguei a campainha. Talvez devesse ter sugerido a ele que tem gente que acorda mais tarde, às 8h, às 9h, 10h... Omiti. Falarei da próxima vez, com jeito e com leniência.

Imagino que para jogar no time do bom senso seja necessária outra virtude em falta nos tempos modernos: a empatia. Em resumo e de forma simplista e parcial, é a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro para entender suas expectativas, dificuldades, limitações, tendo muito claro, de antemão, quais são as nossas.

Vamos a um exemplo maior, a reforma da Previdência. Setores mais organizados e mais fortes, principalmente entre agentes do Estado brasileiro, não querem ter benefício algum alterado. Sem entrar no mérito do direito de cada um de se defender e se a reforma é ou não é justa, se seu déficit é ou não o grande vilão do gigantesco rombo fiscal brasileiro, o fato é que, a esta altura, ela é inevitável. Então, se é uma prioridade nacional, todos devem ter sua parcela de contribuição. Mas não é o que se vê. Quem é forte, impõe suas vontades. Quem é fraco paga a conta e nem sobra tempo para protestar. Caberá aos condutores desta medida amarga ter o bom senso de repartir o prejuízo e, mais ainda, na proporção da renda de cada setor da sociedade brasileira.

Outro exemplo? O trânsito. Deste não é preciso falar muito porque, todos, experimentamos diariamente seus dissabores. É o local onde a tirania embutida em cada um de nós impera. Terra de ninguém e de cada um, individualmente.

Não existe argumento mais forte do que aquele envelopado pelo bom senso. Dá a tranquilidade para não subir o tom da voz, não bater forte na mesa, não fazer caras e bocas, não usar da retórica efusiva para impressionar nem apelar para o autoritarismo, mesmo quando se é chefe ou dono do pedaço.

Aristóteles definiu assim o bom senso: “É elemento central da conduta ética, uma capacidade virtuosa de achar o meio-termo e distinguir a ação correta, o que é em termos simples, nada mais do que bom senso”.

Outro filósofo, Descartes, também tem uma bela definição: “O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída”.

Como praticar o bom senso? Também tenho essa dúvida. Andei lendo e há várias receitas, que podem ser resumidas em: aprenda a pensar mais e a falar menos, a refletir de forma independente em relação a seus interesses imediatos, preconceitos, ideologia e crenças (sem abrir mão deles). Problematize com rapidez de raciocínio o que está à sua volta e tome uma decisão balizada em virtudes que a humanidade acumulou até hoje. Não precisa ser todas.

Vale a pena jogar nesse time campeão!