Bauru e grande região

Segundando

A realidade e nós

por João Jabbour

27/01/2019 - 07h00

Após a euforia de grande parte da população com o resultado eleitoral, a sensível melhora nos indicadores econômicos simultaneamente à definição das urnas, as festas de fim de ano que nos desligam das crises, mais a esperança que 2019 trouxe consigo lá do fundo do baú, paira no ar hoje uma sensação de realismo não tão fantástico assim sobre a Nação brasileira.

Não que a esperança tenha se esvaído, que a euforia tenha se perdido em uma ou outra trapalhada ou que as boas expectativas tenham se dissipado tão rapidamente. Não. Não há tempo suficiente nem fatos concretos para essa constatação.

Mas quase um mês de nova realidade política no País e nos estados somado à metade dos mandatos de prefeitos nas cidades não são exatamente o que os de boa vontade com a vida sonhavam para um início de 'nova era'.

Há, digamos, um silêncio quase geral na atmosfera quente do verão brasileiro, permeado por dúvidas e questionamentos que começam a pipocar aqui e ali, ainda assim com viés positivo, indicando, no senso comum, que as coisas vão entrar no eixo, cedo ou tarde. O "sou brasileiro e não desisto nunca" segue valendo para muita gente, apesar de cunhado em um período oposto a este no cenário político/ideológico.

Choque de realidade faz bem a qualquer um, em qualquer circunstância, apesar de quase sempre vir acompanhado de dor, incômodo, chateação e, às vezes, até depressão. Passamos a vida idealizando e buscando a melhor zona de conforto para nossa breve existência. Muitas vezes, em nosso imaginário, chegamos bem perto do paraíso terreno, mas em algum momento seguinte ele se dissipa em um piscar de olhos, restando-nos encarar a realidade nua e crua.

E temos de nos recompor rapidamente em casos assim porque o tempo não para e ninguém resolverá nossos problemas por nós. Não se pode viver uma experiência de despersonalização, que a psicologia define como uma desordem dissociativa, caracterizada por sentimentos de irrealidade, de ruptura com a personalidade, com o mundo como ele é.

A vida contemporânea em sociedade anda caótica e desorientando enormemente os incautos, ingênuos e despreparados. Esses são os primeiros a sofrerem o estresse pós-euforia e são fortes candidatos a irem de um extremo a outro em um segundo. A saltarem do amor ao ódio, da ilusão à desilusão, da glória ao fracasso, enfim, uma bipolaridade que só piora o problema.

Somente a informação e o conhecimento podem nos manter em equilíbrio, serenidade e com sabedoria o suficiente para aguentarmos os desaforos e desafios da existência.

Não estou sendo pessimista nem torcendo contra ou a favor seja lá do que for em política, religião, futebol ou no Big Brother. Apenas penso que não dá para negar os fatos muito menos distorcê-los a nosso bel interesse, como virou moda na rede social e cega muita gente.

A filosofia diz que a realidade é um conjunto de fenômenos sobre os quais buscamos entendimento, para podermos existir, sobreviver, conhecer e exercer o poder (competência) sobre os mesmos. Muito justo. Desde que sejamos honestos ao organizar esses fenômenos.

Ocorre que há muita distorção sobre quase tudo. Cada grupo dominante ou pretensamente dominante desenha a realidade de acordo com seus interesses imediatos, munido de ferramentas poderosas de comunicação e aculturação. Povos que superaram esta etapa vivem bem melhor, são progressistas e, não por acaso, encontram-se em outro estágio de desenvolvimento, bem adiante, 40, 50 anos na linha do tempo histórico.

Para filósofos como René Descartes, John Locke, Berkeley e Kant, o mundo que vemos não é o mundo real, mas apenas uma representação interna gerada pela mente. Não apenas as características fisiológicas (os cinco sentidos) influenciam a nossa percepção do mundo que nos cerca, mas também nossas condições psicológicas, culturais, educacionais, religiosas etc.

Nosso parco conhecimento e crenças são filtros que modificam individualmente a percepção da realidade e seu entendimento.

Então, haja desprendimento e respeito à diversidade de opiniões, convicções e crenças para não exagerarmos na forma como interpretamos a realidade e a propagamos por aí como sendo as únicas, verdadeiras e absolutas.